Severino Cabral 
Diretor-Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico-IBECAP 

 

 

“Há lugares que surgem à nossa atenção como topologias privilegiadas, no Mundo e na História. E são, muitas vezes, aqueles pequenos pontos no mapa favorecidos pela sintonia do factor geográfico com o factor político. Macau foi, e continua a ser, um desses pontos.” A Direção do IIM, in “Macau – puente entre China y America Latina”.

 

Camões: "Já no largo Oceano navegavam,/ As inquietas ondas apartando; "(Os Lusíadas, I, 19).

 

Agostinho da Silva: "Creio, por mim, que o fará; mas que o vai fazer na própria vida: não teremos desta vez páginas de livros, mas tipos humanos: o que vai dar uma oportunidade única a povos para os quais foi a vida sempre o mais importante: China, Índia, Península (Ibérica), América do Sul" ("Filosofia Nova", Convergência Lusíada, p. 361).

 

Nau portuguesaNau portuguesa.

O acontecimento da abertura das rotas oceânicas do comercio e da navegação mundiais, com o feito épico lusitano do domínio do Atlântico e do Índico, inaugura uma nova época para o conjunto da humanidade. Sob inequívoca liderança lusa foram construídas as bases do mercado mundial ao universalizar-se a troca e o intercambio de bens e cultura entre o Novo e o Velho mundo. Essa conquista só é comparável, pelo efeito de transformação nos destinos de todos os povos e todas as nações do mundo, ao que se passa em nossa época com o fenômeno da soi-disant “globalização econômica e financeira”, ao mudar em sua totalidade o ambiente social, político, econômico, tanto quanto científico e cultural da humanidade hodierna.

 

Vivemos a grande transformação da cena mundial contemporânea decorrente entre outros fatores, de um lado, da continuidade da Revolução Cientifico Tecnológica – da idade atômica à era espacial, e da revolução da comunicação até o desenvolvimento das ciências da vida –, de outro, da emergência de grandes espaços continentais e populacionais no Oriente – China e Índia – e, no Ocidente extremo, da América Lusa.

 

Neste horizonte do começo de século e de milênio sobreleva o extraordinário crescimento e desenvolvimento da China que, por sua dimensão particular de um “megaestado” continental e marítimo – como centro mundial de poder – não só instaura uma nova realidade econômica e política internacional, como aponta para a emergência de uma nova ordem mundial multipolar.

 

A ascensão da China no mundo de hoje não surpreende quem conhece a his- tória da civilização e da nação chinesa. Como também não surpreende que a relação da China com o Ocidente moderno tenha sido inaugurada pelo encontro com a Nação Lusa, sua língua e cultura. Como é conhecida, a saga da aventura lusitana se estendeu a todos os mares e todos os continentes.

 

Estátua de Jorge Álvares, em Macau.Estátua de Jorge Álvares, em Macau.

Hoje, distanciados no tempo, podemos ver que a viagem do navegador Jorge Álvares ao estuário do Rio Pérola, a mando de Afonso de Albuquerque, faz parte da extraordinária epopéia Lusa de redescoberta do mundo pelo Extremo Ocidente. Esta viagem inaugura o dialogo Ocidente e Oriente pelo lado português.

 

Pouco mais adiante, em 1557, seria cristalizada, esta relação, pelos séculos a vir, com a fundação de Macau. E, assim, por cinco séculos, Portugal – a Grande Potência Marítima do Ocidente –, inseriu-se na paisagem chinesa. Misturou-se a ela, em cultura e afeto, com um laço por todos os tempos jamais desfeito: um pequeno rincão da China foi e permanece definitivamente marcado pela luz da civilização lusitana.

 

De tal maneira que, como um fato gerador de futuro, no dia 20 de dezembro de 1999, nascia a Região Especial Administrativa de Macau, na China; pequeno acontecimento altamente significativo do final do século XX. A partir dele muitas transformações adviriam no contexto internacional, desafiando a capacidade e o talento inovador do homem de Macau para gerir com autonomia, e criar um ambiente único de encontro do Ocidente com o Oriente.

 

Luís Vaz de Camões.

 A aventura lusa abriu o caminho das rotas oceânicas do mundo, gerando o mercado universal contemporâneo; tal feito está na origem do fenômeno da soi-disant “globalização”. Esse fato está definitivamente retratado na imortal epopéia camoniana. A poesia de Camões, autor maior da língua portuguesa é testemunho vivo da trajetória seguida pela gente lusitana, que construiu o Brasil, a África e a Ásia como pátria humana comum. A literatura de língua portuguesa independente do acento que exiba – metropolitano, americano ou ásio-africano – representa, ontem como hoje, o que de melhor o mundo lusitano e a sua cultura integradora e universalista inspirou, em diferentes épocas da história, à humanidade ocidental.

 

Ambiente único de encontro da cultura singular do Ocidente Latino, baseada na língua do povo português; e, no mesmo sentido, com a cultura mater do Oriente Sínico, baseada na língua do povo Han. Acontecimento histórico que se amplia a uma dimensão global, dado o tamanho da população de 260 milhões de luso-falantes, que integra a comunidade de países de língua portuguesa, presente em todas as regiões do mundo, e, de outro, a língua chinesa e o maior ecúmeno nacional do mundo. Lugar, pois, nuclear do encontro de duas culturas de significado especial para o Brasil, porque baseadas na extensão universal das línguas de cultura chinesa e portuguesa.

 

Mas a língua portuguesa não teria essa dimensão se não fora o reconhecimento do fenômeno ao qual, um dia, o gênio de Fernando Pessoa denominou “o grêmio da língua portuguesa”: o fato de que o Brasil e os países que compõem a Comunidade da Língua Portuguesa têm uma mesma língua de cultura e basicamente formam um mesmo processo civilizatório. Uma língua de cultura universal a qual, como os padres da Companhia de Jesus revelaram ao mundo, formava um par criador com a outra língua universal da cultura humana: o idioma chinês.

 

O começo dos tempos modernos assistiu ao povo lusitano inaugurar uma época da história da humanidade baseada no sistema internacional fundado no comércio e na interação entre povos e civilizações: os descobrimentos das rotas oceânicas do mundo, a unir pela primeira vez todos os continentes e todos os meios de riqueza e poder do homem, fruto da grande aventura marítima de Portugal, talvez só tenha símile na conquista do cosmos da nossa época.

 

Quando brasileiros exaltamos a grande conquista do povo português é porque ela não pode ser esquecida pelo que significou para o destino nacional do Brasil. Sem a epopéia portuguesa dos Descobrimentos não haveria a nação brasileira tal como é conhecida de seus filhos e de todos os demais povos do mundo contemporâneo. Só por isso se justificaria a grande aventura do espírito luso. 

 

Vasco da Gama.

Ela pode ser inda hoje medida pela construção ainda incompleta do outro Brasil – o Brasil africano – legado a ser realizado no futuro pelos países que formam a Comunidade de Língua Portuguesa na África.

 

Além da África, a Índia e a China foram também tocadas pela presença lusa na língua e na cultura. Desse modo podemos dizer que todo o mundo civilizado foi unido pela língua portuguesa: uma língua universal pela riqueza de sua expressão e pelo âmbito que ela criou.

 

A importância da conquista lusa das passagens do Grande Oceano, que banha o Hemisfério Ocidental, a África e a Ásia, residiu, sobretudo, na aven- tura de levar aos continentes mais distantes a fé cristã e a nova ciência da natureza, que veio a substituir o cosmos do mundo antigo pelo universo infinito da era moderna.

 

Foi essa passagem do Ocidente ao Oriente que permitiu a Índia e a China se integrarem ao mundo da modernidade e se introduzirem no sistema industrial e urbano que da Europa se estendeu a todo o mundo.

 

Um símbolo vivo dessa relação do mundo lusófono com o Oriente tem sido a cidade de Macau que, fundada em 1557, permaneceu administrada por Portugal até 1999, num arco de tempo que foi dos começos da época dos descobrimentos até ao término do segundo milênio da era cristã.

 

No momento em que a China inicia nova e decisiva etapa de sua mo- dernização, orientada pelo sonho chinês da revitalização nacional, ao construir as bases da retomada do crescimento da economia global, com a criação da gigantesca infraestrutura a ser gerada pelo projeto do “Cinturão e da Rota Marítima do Século XXI”, assistimos à reconstrução estratégica das rotas antigas do comércio do Velho Mundo. Esta é uma grande e inovadora iniciativa chinesa que motiva e inspira a todos os países do Velho Mundo a reconstituírem a antiga rota do comercio mundial que uniu outrora o Império Romano ao mundo Sino e Indo-Persa.

 

No entanto não se pode deixar de pensar que a economia global não se sustentará apenas na reconstrução dessa antiga rota do comercio internacional, mas sim irá necessitar da complementação pela reassunção do mundo criado pela abertura da rota do Cabo, por Vasco da Gama, e da Circunavegação pelo Sul do continente americano, empreendida pelo navegador português Fernão de Magalhães, a serviço de Espanha. Essas duas épicas viagens, na aurora dos tempos modernos, estabeleceram a ligação Pacífico, Atlântico Sul e Índico, no conjunto denominado por Sir Halford Mackinder de “Grande Oceano”.

 

Parece que, se vier a se estruturar esta segunda grande rota de comercio internacional – a Carreira das Índias e a Carreira do Pacífico –, ela deverá tornar-se essencial ao reerguer-se da Economia Global. Como também deverá se tornar por meio dos múltiplos pólos de poder um sustentáculo do equilíbrio do poder numa época de intensas mudanças na ordem mundial.

 

imagePedro Álvares Cabral.

O começo do século XXI e do Terceiro Milênio está a configurar o nascimento de nova e complexa ordem mundial, na qual a parceria es- tratégica de dimensão global dos países lusófonos dará caráter de sustentáculo, pilar, socle, ao sistema internacional multipolar. O poder meridional que emergirá com a integração do espaço sul-americano mais o cone austral africano tornará o Brasil, país central do mundo lusófono, o primeiro estado “tri-oceânico”, que deverá, junto com a China e Índia ser um dos pilares da nova ordem mundial (global).

 

A realização desses projetos nos revela também o fato de que Macau não só deverá acompanhar o ritmo acelerado de desenvolvimento chinês como vir a se tornar uma plataforma de cooperação e intercâmbio da China com o mundo de fala portuguesa em todos os continentes. Caberá aos outros membros da comunidade de língua portuguesa um esforço a mais, na linha antecipada pelos clássicos eternos da língua portuguesa para ampliar essa plataforma ligando todos os “lusitanisados” do mundo ao universo cultural sínico, e assim abrir o passo para entrada da humanidade do terceiro milênio na era da “nova mundialidade”.

 

 

Bibliografia

  • Alves, Jorge Santos (Coord.). Portugal e Indonésia: história do relacionamento político e diplomático (1509-1974). Macau, IIM, 2013.
  • Cabral, Severino. Brasil megaestado: nova ordem mundial multipolar. Rio de Janeiro, Contraponto, 2004.
  • Cabral, Severino. O Brasil e a China: relações de cooperação para o século XXI. Macau, IIM, 2005.
  • Cabral, Severino. As relações Brasil-China e os desafios do século XXI. Macau, IIM/IBECAP, 2009.
  • Cabral, Severino. China: uma visão brasileira. Macau, IIM/IBECAP, 2013.
  • Cabral, Severino. Das covas de Viriato ao mundo global: o caminhar da Lusitanidade e o V Seminario “O papel de Macau e o Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro”. Macau, Revista Oriente/Ocidente-IIM, nº 31, 2014.
  • Camões. Les Lusiades/Os Lusíadas. Paris, Robert Laffon, Édition Bilingue Portugais Français, 1992.
  • Freyre, Gilberto. China tropical. São Paulo, UNB, 2003.
  • Freyre, Gilberto. Um brasileiro em terras portuguesas. Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1953.
  • Freyre, Gilberto. Aventura e Rotina. Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 1953.
  • Gary Ngai (org.) Macau-Puente entre China y America Latina. Macau, MAPEAL/IIM, 2006.
  • Li Jinzhang & Reis, Maria Edileuza Fontenele. O Papel de Macau no Intercambio Sino-Luso-Brasileiro. Macau, IIM/IBECAP, 2013.
  • Martínez, Pedro Soares de. História Diplomática de Portugal. Lisboa, Almedina, 2010.
  • Pessoa, Fernando. Mensagem. Edição clonada da biblioteca nacional de Portugal. Babel, 2010.
  • “Revista Convergência Lusíada, nº 23: Centenário de Agostinho da Silva”. Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leitura, 2007.
  • Selvagem, Carlos. Portugal Militar: Compêndio de História Militar e Naval de Portugal. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 2006.
  • Silva, Agostinho da. Condições e Missão da Comunidade Luso-Brasileira e Outros Ensaios. Brasília, FUNAG, 2009.
  • Tang Yijie. Valeur du principe: “Être en harmonie sans être identiques”. Paris, Alliage/Dialogue Transculturel nº 1, 2001.
  • Ye Zhiliang. O papel do ensino da língua portuguesa na China para as relações Sino-Lusófonas. Macau, Revista Oriente/Ocidente-IIM, nº 31, 2014.

Revistas

2017
2016
2015
rev oriente ocidente 31 net
2014