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MISSIONáRIOS PARA O SéCULO XXI

Nova colecção no acervo editorial do IIM

  Foi o século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.”

           O primeiro volume de uma nova colecção do acervo editorial do Instituto Internacional de Macau, a que se chamou “Missionários para o Século XXI”, foi lançado em Abril de 2008, poucos dias depois da sua oportuna pré-apresentação na festa de homenagem ao Pe. Lancelote Rodrigues, a cuja vida e obra é dedicado.

           Foi com esta breve nota introdutória que os editores explicaram os propósitos da colecção, que já tem vários outros volumes em preparação:

           “Não podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (‘cum’ + ‘siderio’), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e ‘acomodados’ ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.

 

           Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.

           Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.

           Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – Missionários para o Século XXI.”

           O primeiro volume da nova colecção do IIM intitula-se “Pe. Lancelote Rodrigues – vida e obra” e é sua autora Leonor Diaz de Seabra, professora do Departamento de Português da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Macau. Como ela bem explicou, no acto do lançamento, não se trata propriamente de um trabalho científico, sendo antes um texto que resultou de longas conversas gravadas ao longo de alguns meses e da prodigiosa memória viva do biografado, a que se juntou uma excelente selecção fotográfica, que faz do livro também um álbum das obras humanitárias a que este sacerdote se devotou.

           A autora começou com um breve enquadramento histórico do papel de Macau como terra de acolhimento e oásis de paz numa área geográfica conturbada e num mundo em permanente agitação:

           “Macau foi, ao longo dos tempos, um ‘porto de abrigo’ de refugiados. Desde a Revolta dos Boxers, em 1890, em que muitos europeus que viviam na China procuraram refúgio em Macau, aos anos de 1922 a 1927, em que os sentimentos antiestrangeiros recrudesceram na China, marcando a ascenção do Kuomitang ao poder. Em 1931, a China foi invadida pelos Japoneses, o que provocou uma avalancha de refugiados chineses ao pequeno enclave macaense. E, com o desencadear da Guerra Anti-Japonesa, muitas escolas do Sul da China transferiram-se para Macau; e a Igreja Católica também criou novas escolas para ministrar o ensino aos jovens chineses refugiados em Macau. Mais tarde, durante a II Guerra Mundial, com a ocupação de Hong Kong pelos Japoneses, nos finais de 1941, muitos refugiados da colónia britânica se estabeleceram em Macau. Com o decorrer da Guerra do Pacífico e os sucessivos ataques japoneses a vários territórios asiáticos, mais e mais refugiados procuraram refúgio neste pequeno território, aproveitando a sua neutralidade. É de notar que Portugal foi um país neutral durante a II Guerra Mundial (1939-1945) e Macau terá beneficiado desta situação.

           Mas com o desenrolar da História mais refugiados iriam chegar a Macau, mais tarde. E será a partir desta altura que o Padre Lancelote terá um papel fulcral neste Território, desempenhando importantes funções de protecção aos refugiados, entre outras.”

           Descreve, a seguir, num estilo escorreito e agradável, os momentos mais marcantes duma vida ao serviço dos outros e das causas de solidariedade que deram sentido a essa vida e nobreza a este homem simples, cujos traços de personalidade mais relevantes são também apontados:

           “Amigo dos prazeres da vida, é um apaixonado da música e da boa mesa, tocando viola, rabecão, piano e órgão, também canta, fuma, bebe, estabelecendo sempre à sua volta um clima de boa disposição. Por natureza alegre e extrovertido, é extremamente humano e tolerante, convivendo com toda a gente e fazendo amizades, sem olhar ao credo de cada um.

           É o único sobrevivente de uma geração de sacerdotes, que muito honraram e contribuíram para engrandecer Macau – em especial, nesta sua faceta de solidariedade humana – e a Igreja Católica, no Território.”

           O aparecimento do primeiro volume desta nova colecção coincidiu com a atribuição pelo júri, constituído pelo corpo universal dos titulares dos órgãos sociais do IIM, do Prémio Identidade à Diocese de Macau, em reconhecimento da relevantíssima acção evangelizadora, cultural, educativa e social da Igreja Católica, determinante para a afirmação da identidade de Macau e da Comunidade Macaense, desde os primórdios do estabelecimento até aos nossos dias, e com projecção assegurada no futuro. O Prémio Identidade, instituído pelo IIM em 2002, foi anteriormente concedido a Monsenhor Manuel Teixeira, ao Dr. Henrique de Senna Fernandes, ao Comendador Arnaldo de Oliveira Sales, ao Prof. Eng. Luís de Guimarães Lobato, à Universidade de Macau e à Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. Conforme o respectivo regulamento, o Prémio pode contemplar uma personalidade ou uma instituição que tenha, de forma continuada e exemplar, contribuído para o reforço dos factores que caracterizam a identidade macaense.

           Voltando ao acervo editorial do IIM, outras colecções que tiveram boa aceitação são “Cidade Cristã”, com vários volumes preparados no âmbito do seu Centro de Estudos da Diáspora e da Identidade Macaense, “Milénio Hoje”, reunindo diversos títulos de conferências proferidas na sua sede sobre temas estratégico-políticos, “Mosaico”, integrando uma série de opúsculos sobre temática cultural local e os cadernos “Oriente/Ocidente”, além da revista “Macau Focus”, em Inglês, cuja publicação vai ser retomada.

           No dia do lançamento do volume I de “Missionários para o Século XXI”, procedeu-se também à apresentação destas outras obras recentemente publicadas pelo IIM: a 5a edição de “Cheong Sam – A Cabaia”, livro de contos da jornalista e escritora macaense Deolinda da Conceição, “The Portuguese Community of Hong Kong”, um belíssimo álbum de fotografias, com uma evocação histórica da Comunidade Portuguesa de Hong Kong, de António Pacheco Jorge da Silva, arquitecto macaense radicado nos E.U.A., o 3o volume de “Falar de Nós”, reunindo crónicas e artigos sobre Macau e a Comunidade Macaense, “O Poeta no Oriente do Ocidente”, de António Manuel Couto Viana” e o no. 6 da Colecção “Mosaico”, intitulado “No Centenário de Luís Gonzaga Gomes”. Uma feira do livro complementou esta actividade centrada na promoção da leitura e organizada sob o signo da trilogia “Livros, Memória e Identidade”.

5 de Maio de 2008.

N.B. - Se quiser saber mais, prezado leitor, sobre a nova colecção ou sobre o Pe. Lancelote Rodrigues, leia o livro e coloque-o na sua estante. O exemplo deste homem generoso será um permanente motivo de inspiração para todas as justas causas.

Prossegue a colecção "Missionários para o Século XXI

 "O Pe. Guerra lutou por realizar a integração do seu sonho de serviço à cultura chinesa, dentro do serviço da evangelização. Lutou e viveu com ele como quem vive um amor."

Henrique Rios dos Santos, S. J.

           Depois de "Padre Lancelote Rodrigues –vida e obra", de Leonor Diaz de Seabra, saiu também do prelo "Padre Joaquim Angélico Guerra, S.J. – um globetrotter ao serviço de Deus e da China”, de Henrique Rios dos Santos, S.J., obra lançada no dia 24 de Setembro de 2008, durante a cerimónia de atribuição do Prémio Identidade à Diocese de Macau. Os dois livros integram a colecção "Missionários para o Século XXI", apresentada em Abril do mesmo ano pelo Instituto Internacional de Macau, com o propósito de perpetuar a memória de "padres, missionários, mártires, letrados, servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura", "uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é a expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino".

           Neste novo trabalho, que assinala o centenário do nascimento do Pe. Joaquim Guerra, S.J., o autor relata-nos a

vida singular daquele sacerdote de inabaláveis convicções e empenhadamente devotado ao serviço de Deus, da evangelização e da divulgação da cultura chinesa, dando dele o seguinte "retrato rápido de corpo inteiro":

           Já ia na quarta volta ao mundo, – cheio de entusiasmo nos seus ágeis 85 anos – quando foi atropelado na cidade de Toronto, Canadá, a 11 de Agosto de 1993.

           Nasceu a 8 de Abril de 1908, Joaquim Angélico Guerra, na freguesia de Lavacolhos, a 12 km do Fundão, sede do concelho, olhando de frente a Serra da Estrela.

           Para um homem nascido com a mais alta serra de Portugal no horizonte, – como o grande navegador Pedro Álvares Cabral, – o desejo de subir à montanha, de a ultrapassar para ver o mundo, pode ser o símbolo de um desafio que define uma vida.

           Um incompreensível descuido do pároco – Pe. José Martins – não registou o seu baptismo. Como foi a partir dos registos paroquiais que se criaram e desenvolveram os registos civis, tal descuido significará uma acrescida dificuldade para obter qualquer registo oficial, que só conseguiu obter em Braga, sendo ele da Beira Baixa, pouco antes do serviço militar e nas vésperas do embarque para a China.

           De alta estatura e robusta saúde física, os castigos da vida deixaram-lhe uma forte marca na emotividade e impulsividade com que reagia a certos temas. Falava com os olhos semicerrados por emoção e concentração; perdia-se nas horas de conversa ou pregação, encontrando sempre ideias e semelhanças a propósito.

           A sua voz de trovão e de profeta, aliada ao vigor intelectual e capacidade argumentativa, tornavam-no polémico involuntariamente. Definir-se-á mais tarde, ao preencher os interrogatórios: ‘Confesso que tenho um feitio de ocidental, e não tenho a paciência de um chinês. Muitas vezes devo ter ofendido a muita gente, com as minhas palavras e atitudes; e tenho pena disso’. Deixou de condenar apaixonadamente os comunistas, quando percebeu que eles também pertenciam a um povo a salvar por Deus. Passou a avisá-los e avisar a todos, de que, embora limitados na sua visão materialista, um dia eles e a Humanidade rejeitariam as suas teorias e práticas. Génio apaixonado, exagerava tanto, tanto, que por vezes de si mesmo se ria do que afirmara, quando advertido.

           Mas era atento e cuidadoso ao ouvir os outros; de bom humor, desarmando pela bondade quando seria de esperar um pouco de ressentimento. Quando era preciso, sabia ser diplomático e controlado, sem subserviência.

           As coisas materiais, incluindo dinheiro, eram para ele um meio muito meio, que não deviam atravessar-se nunca a impedir os ideais, fossem os seus ou os da Humanidade. Desprendido de tudo, sim, menos das suas ideias e projectos: ‘Os mesmos crimes de que me acusaram os comunistas, esses mesmos tenho continuado a ‘cometer’!’

           Para o seu tempo e estilo religioso era um pródigo a planear as suas viagens, entrelaçando as motivações culturais com as religiosas, as familiares e as da amizade. Surpreendia, superiores e colegas, amigos e desconhecidos. (Com um amigo de Boston, que não pudera comprar em tempo uns sapatos para uma recepção, trocou-os no carro com os seus).

           Escreveu um Diário (inédito) a partir de 1959 até aos últimos dias. Conciso, ao longo dos quarenta e tantos caderninhos, vai dando indicações dos locais, pessoas e assuntos que o impressionaram ou teve de tratar. Não descreve em detalhe as suas lutas e problemas anteriores, mas em duas frases fica apontada a matéria. Anota sempre quais as suas orações, especialmente a recitação do terço ou rosário, entregando à Mãe de Jesus e sua os dias que ia edificando. Deixou em cadernos separados os apontamentos dos Exercícios Espirituais anuais. Escreve um bom par de vezes os sonhos que teve, dando-lhes a sua interpretação premonitória e/ou integradora, – como podemos ver nos que publicou no livro sobre as suas memórias de missionário e de cárcere – ‘Condenado à Morte’ – Edições A. I., Porto, 1963.

           O Padre Joaquim Guerra pela vida fora não foi uma pessoa comum. Gostava de rever as pessoas concretas que com ele se tinham alguma vez cruzado, em prosperidade ou carência. Buscava e encontrava familiares e amigos, dispersos pelos quatro cantos do mundo.

           Seria uma herança sentimental, tão característica de quem saiu cedo da família ou arrancado pelas contingências da vida ao convívio dos amigos?

           Proclamou os seus valores culturais e religiosos. Escrevia e falava em público com bastante facilidade – com a consciência e persistência de quem busca a melhor solução para a Humanidade, tentando superar o que a pudesse dividir ou ultrajar. Empenhava-se todo nas soluções, não pondo de lado mesmo a política, com as consequências que conhecemos ou adivinhamos.

           Os seus profundos sonhos de vida – transmitir Deus e mostrar o grande valor da cultura e do povo chinês – viu-os realizados em grandíssima parte. As publicações são a realização das suas fulgurantes intuições, confirmadas pela ciência, meditação e oração, mas são também o sinal vivo de como foi ajudado e admirado pelas autoridades e amigos.”

           Depois deste singelo “retrato”, Henrique Rios dos Santos, S.J., identifica a vasta obradeste “missionário do humanismo chinês” e realça a sua impressionante capacidade de interpretação e divulgação dos grandes clássicos chineses, os esforços porfiadamente realizados na obtenção de apoios para a publicação dos seus estudos e traduções, os dissabores e as humilhações que experimentou durante a guerra sino-japonesa e imediatamente após a implantação do regime comunista, a sua expulsão da República Popular da China, as altamente meritórias actividades levadas a cabo em Macau, o seu périplo por países e territórios da Europa, da América Latina e da América do Norte, a actividade docente e cultural em Portugal e o reconhecimento oficial expresso na comenda da Ordem da Instrução Pública e na Medalha de Valor, atribuídas pelo Presidente da República e pelo Governador de Macau.

           “Macau, a quem ele buscou semânticas sem conta, porta giratória e farol para ele e para muitos outros embaixadores políticos, sociais, religiosos ou da Companhia de Jesus, era o ponto de encontro, onde todos sentiam que a novidade do Extremo Oriente e em especial da China – fosse ela da ciência, tecnologia, humanismo, arte ou qualquer outra, esbarrava na quase intransponível barreira da Língua.

           Poucos foram os que a foram vencendo, mas menos ainda foram os que lhe buscaram uma solução. Para a dureza do caminho não bastava a intuição, a inteligência ou os meios materiais. Era necessário o suplemento afectivo, empático que só algumas pessoas têm de nascença ou de crença, ou as duas.

           E uma delas foi o Pe Joaquim Angélico (de Jesus) Guerra, da Companhia de Jesus.”

           Dezenas de fotografias de momentos relevantes da vida e obra do Pe. Joaquim Guerra ilustram este livro. No corrente ano, também a Câmara Municipal do Fundão publicou um “Auto-retrato do Padre Joaquim Guerra, S.J.”, antologia de textos seleccionados, organizados e anotados por Jorge Baptista Bruxo, professor do Instituto Politécnico de Macau e igualmente autor de “Padre Joaquim Guerra – uma biografia intelectual”, dissertação de Mestrado em Língua e Cultura Portuguesa (colecção “Estudos de Macau”, Universidade de Macau, 2004).

           Novos títulos da colecção “Missionários para o Século XXI” estão em preparação.

  

20 de Outubro de 2008.

 

Actualizado em ( 08-Jul-2009 )
 
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