Principais Festividades Tradicionais da Comunidade Macaense

 

Alexandra Sofia Rangel

Investigadora académica, autora do livro

“Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”

 

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Dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrado em Macau

 

A forma como uma comunidade se organiza e participa colectivamente em festas e festividades, revivendo as suas tradições ou assinalando da­tas com especial significado, consti­tui também um elemento identitário que importa assinalar.

A comunidade macaense habituou-se, ao longo da sua história, a par­ticipar muito activamente em festi­vidades, quer portuguesas, quer chinesas. Ainda hoje, quase duas décadas depois da transferência do exercício da soberania, em Dezembro de 1999, é assim, tanto no território, como na diáspora ma­caense.

Os feriados oficiais incluíam, na vi­gência da administração portuguesa, datas respeitantes a grandes acon­tecimentos nacionais portugueses, festividades tradicionais chinesas e também festas da Igreja Católica. Após a transição, foram eliminados os feriados respeitantes a altos momentos históricos portugueses, tendo sido, porém, mantidas algu­mas das festas religiosas cristãs, que têm especial significado para a comunidade macaense, como a Pás­coa, o Dia da Imaculada Conceição e o Natal.

Em outros tempos, sensivelmente até meados do século XX, também foi amplamente participado, pela comunidade macaense, o Carnaval, o que tornou a cidade de Macau diferente das outras daquela área geográfica:

Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando, galhofando, palha­çando, em gestos e atitudes de truão.

 

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Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX.

 

 

Os sons alegres das tunas e os ri­sos festivos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalha­das estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais.

(…)

As festas carnavalescas punham uma nota viva, interessante e chis­tosa no viver pacato e monótono de Macau (Machado 2002: 147-150).

As festividades chinesas que mais atraem os macaenses são o Ano Novo Chinês, o Festival do Barco Dragão e o Festival de Outono. Para os chineses de Macau, são também importantes o Ching Ming (Dia do Culto dos Antepassados), o Dia do Buda e o Chong Yeung (Dia dos An­tepassados), sendo de registar que o culto dos antepassados é cele­brado duas vezes por ano. São fes­tas móveis segundo o calendário lunar.

Apesar de já não serem feriados ofi­ciais, duas datas continuam a ter o maior significado para a comuni­dade macaense: o 10 de Junho, Dia de Portugal, e o 24 de Junho, an­tigo Dia da Cidade de Macau, a data em que a população de Macau se defendeu com sucesso do último ataque dos holandeses, em 1622. As novas autoridades escolheram para Dia da Região Administrativa Especial de Macau o dia 20 de De­zembro, data do seu estabeleci­mento, cujas celebrações contam também com o envolvimento de instituições da comunidade ma­caense.

Para este estudo, foram identificadas quatro datas particularmente rele­vantes para os macaenses: o Ano Novo Chinês, o 10 de Junho, o 24 de Junho e o Natal.

 

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Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX.

 

Ano Novo Chinês

 

Devido ao grande entusiasmo com que é celebrado pelo grupo domi­nante da população de Macau, o Ano Novo Chinês faz parte da vida de qualquer macaense. Sendo a maior de todas as festas realizadas na China e na vasta diáspora chi­nesa, também os macaenses a co­memoram, mesmo quando residen­tes no estrangeiro. É impossível sair à rua nesta altura sem assistir às celebrações, cheias de cor e movi­mento, que incluem danças do leão e do dragão, exposições artísticas e de flores, banquetes, espectáculos musicais e a queima quase inces­sante de panchões.

Uma tradição do Ano Novo Chinês é a oferta de lai-si, pequenos enve­lopes vermelhos contendo dinheiro, que são dados por pais a filhos, pa­trões a empregados e casados a sol­teiros. Os macaenses também par­ticipam neste costume, e a entrega de lai-si é tão popular entre eles que costumam oferecê-los nos aniversá­rios dos filhos, netos e sobrinhos. Os lai-si têm, muitas vezes, decora­ções lindíssimas, com desenhos muito diversificados, tornando-se em objectos muito apreciados, sendo mesmo coleccionados por crianças portuguesas e de outras nacionalidades, atraídas pelo seu exotismo.

As donas de casa, chinesas e ma­caenses, compram ramos de pesse­gueiro e narcisos para decorar a casa, assim como arranjos florais ela­borados, imitações de panchões e papéis e dísticos vermelhos para afugentar os maus espíritos.

Outra tradição é jogar nos casinos, em busca da sorte neste período auspicioso para todos. Muitos habi­tantes e turistas chineses vindos de Hong Kong, Taiwan ou do conti­nente chinês enchem estes locais de jogos de fortuna e azar, e dão à ci­dade uma imagem de alegria e prosperidade económica, partici­pando, activamente, nos festejos e adquirindo as guloseimas, flores, roupas, brinquedos e outros artigos habitualmente consumidos nesta ocasião. Mesmo os menos afortuna­dos procuram usar roupas novas e integram-se completamente neste ambiente de festa.

 

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Exemplo de “lai-si”.

 

 

Nesta altura do ano também os ser­viços, os escritórios, as obras públi­cas e muitas casas comerciais ces­sam completamente a actividade durante vários dias. Até os pesca­dores, com as suas embarcações embandeiradas, recolhem ao porto de Macau e vêm para terra.

Outro hábito salutar é o pagamento das dívidas até à véspera do Ano Novo Lunar. Nenhum homem de ne­gócios, por uma superstição que a todos favorece, transfere para de­pois dessa data qualquer das suas dívidas, o que é, de facto, muito benéfico para a economia local.

Cada novo ano é referido a um ani­mal do zodíaco chinês. Leonel Bar­ros, em Macau – Coisas da Terra e do Céu, explica assim esta lenda:

Uma lenda muito antiga contava que Buda resolveu chamar à sua presença todas as espécies de animais que existiam na Terra, a fim de lhes dar conselhos no que dizia respeito ao modo como te­riam que lidar com os homens.

De todos os animais existentes na Terra só compareceram doze: o ti­gre, o dragão, o cavalo, o carneiro, o galo, a serpente, o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco.

Grato com a presença desses ani­mais, Buda determinou que para cada ano fosse designado um dos doze animais. Assim, cada ano passou a ser conhecido por um dos doze animais do zodíaco chi­nês divididos em dois grupos, em conformidade com os elementos da teoria dualística da criação, base da concepção chinesa do Universo (...) Pertencem ao ramo Yang – elemento viril e activo – o tigre, o dragão, o cavalo, o car­neiro, o galo, e a serpente (…) No ramo Ying – elemento feminino passivo – englobam-se o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco (Barros 1999: 73-74).

Com toda a sua carga simbólica e o seu significado, esta é e será, pro­vavelmente, sempre a maior festa chinesa, que nem regimes mais au­toritários conseguiram suprimir ou limitar:

São tradições milenares que re­sistem ao tempo e às mudanças, não se deixando vencer por van­guardismos de qualquer cor polí­tica ou por modas, sempre pas­sageiras. Na China, nem o regime comunista nas suas mais demoli­doras fases conseguiu modificar hábitos e ritos de antanho ligados às festividades do Ano Novo. Chamando-lhe Festa da Prima­vera ou dando-lhe outro nome, essas festividades continuaram no dia-a-dia da vida do povo chinês e os altos dirigentes políticos vol­taram a conviver em lautos ban­quetes nesses dias de festa, que acabaram por ser oficialmente aceites como comemorativos do Ano Novo Lunar. E, não obstante as grandes transformações verifi­cadas, esta é e será sempre, tam­bém, a maior de todas as festas da população de Macau (Rangel 2009: 50).

 

10 de Junho

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O busto de Camões no jardim dedicado ao Poeta.

 

O Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas tinha no tempo da administração portuguesa um significado especial para os ma­caenses, pois, como refere Henrique de Senna Fernandes,

Camões, no coração dos macaen­ses, foi sempre o símbolo da Pá­tria distante. Esta convicção não era apenas alimentada pela romagem anual à Gruta, onde diante do Busto do Poeta desfila­ram gerações de estudantes. (…) era costume presentear-se a todo aquele que ingressasse, pela pri­meira vez, no Liceu, com um vo­lume de “Os Lusíadas”. Eu recebi o meu. Na mesma época, quando as escolas primárias eram da res­ponsabilidade do Leal Senado da Câmara, era costume premiar o melhor aluno finalista, em cerimó­nia simples mas cheia de signifi­cado. O prémio que lhe deposi­tavam nas mãos, era também um volume de “Os Lusíadas” (Fer­nandes 1999: 60).

Esse significado estendeu-se para além da transição. De facto, Luís de Camões representou para sucessi­vas gerações de macaenses a sua ligação a Portugal, da qual nunca se esqueceram apesar da enorme distância entre Macau e a então Metrópole. Nos dias que correm, mesmo havendo facilidade em via­jar de Macau para Portugal, Camões continua a simbolizar para muitos de nós as nossas origens, o nosso passado e o país que é a nossa se­gunda casa.

Luís de Camões tem um grande jar­dim em Macau com o seu nome, onde se situa a famosa Gruta de Ca­mões, contendo o seu busto. A pri­meira romagem à Gruta foi feita em 1923 por iniciativa do então Gover­nador de Macau, Rodrigo Rodri­gues, “(…) um patriota exaltado e fervoroso cultor de Camões (…) que logo no primeiro ano da sua che­gada a Macau convidou as escolas e as forças armadas para irem à Gruta homenagear o épico. (…) foi ele que enalteceu o vulto imortal do poeta e a sua emoção foi tão pro­funda que desatou a chorar, tendo de interromper o discurso” (Teixeira 1999a: 67-68). Ainda hoje, todos os anos, instituições de matriz portu­guesa, nas quais se incluem asso­ciações macaenses, e escolas de Macau, incluindo, como não podia deixar de ser, a Escola Portuguesa de Macau e o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, continuam a participar na cerimónia do 10 de Junho, desfilando perante o busto do maior poeta português e colo­cando flores no respectivo pedestal. Alunos da Escola Portuguesa de Ma­cau e da Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes declamam sonetos de Camões em, respectivamente, português e cantonense e grupos de danças e cantares actuam no lo­cal.

Reza a tradição que Camões terá es­crito parte de Os Lusíadas nesta Gruta. No entanto, a partir do século XIX, foram-se levantando vozes con­trárias, pondo em causa até a pas­sagem de Camões por Macau. Mas o Padre Manuel Teixeira, respeitado historiador que viveu em Macau, co­menta que “Os que negam a estada de Camões em Macau baseiam-se no argumento do silêncio do poeta sobre Macau, alegando que Macau não existia. Se isto fosse verdade, tudo aquilo que ele não mencionaria não existiria” (Teixeira 1999b: 21). Nas suas obras A Gruta de Camões em Macau (Teixeira 1999a) e Ca­mões esteve em Macau (Teixeira 1999b) ele refuta essas opiniões, apresentando factos e excertos de documentos que deitam por terra os argumentos contrários à estada de Camões em Macau, o que não foi difícil, uma vez que os textos dos contestadores estavam repletos de erros históricos, erros que eles foram copiando uns dos outros, demons­trando uma ignorância sobre os pri­mórdios da história de Macau (Tei­xeira 1999b: 65-78).

Contudo, o que interessa aos ma­caenses não é a polémica criada à volta da estada de Camões em Ma­cau, mas sim, como já foi referido atrás, o que o poeta representa para a comunidade:

Macau só tem que se orgulhar de ter sido a primeira possessão ul­tramarina portuguesa a erigir um busto a Camões. Antes mesmo da capital do Império!

Porque se não estivera em corpo, o espírito do Poeta, em cá che­gando, nunca de cá saiu! Por aqui ficou a impregnar cada um dos descendentes dos portugueses que partiram em demanda de honra e proveito, na Índia e mais além, mesmo muito mais além da Taprobana…

E disso, todas as gentes de Ma­cau, de espírito aberto e ecumé­nico, neste pluriculturalismo que está na sua génese, devem estar orgulhosas. Porque, na obra de Camões, já encontramos a con­cepção globalista do mundo ba­seada no encontro entre duas cul­turas diferentes, que é justamente o que está na base do estabele­cimento de Macau. Camões é a chama que nos une, é o símbolo da simbiose do Ocidente com o Oriente (Ribeiro 2007: 26)

Um busto de Camões já se encon­trava na Gruta em 1794, pois é men­cionado por Sir George Staunton no diário de viagem da Embaixada de Lord Macartney à China em 1792-1794 (Teixeira 1999a: 67).

Dito isto, vem a propósito relembrar algumas das referências que um dos maiores escritores portugueses, dos raros que tiveram contacto directo com o Extremo Oriente, Camilo Pessanha, fez à Gruta de Camões e à permanência do vate em Macau, em “Macau e a Gruta de Camões”, incluído na compilação Camões nas Paragens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais:

Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epo­peia marítima que culminou na formação do vasto império por­tuguês do século XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta ape­nas ponderar se Macau, esta exí­gua península portuguesa do Mar da China ligada ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades que a recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou.

Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do Globo. Macau é o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente nesses tempos gloriosos. (…)

É a Gruta de Camões (…) esse lu­gar sobre todos prestigioso de­dicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extin­guir-se enquanto houver portu­gueses; e enquanto não se extin­guem, há-de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, medi­tou, em Macau (…) (Pessanha 1927: 13-15).

 

24 de Junho

 

Macau foi sempre um ponto estra­tégico nas rotas comerciais, o que gerou a cobiça por parte dos holan­deses no século XVII, como afirma Austin Coates:

Os Holandeses cedo chegaram à conclusão de que o lucro do co­mércio com o Japão dependia da quantidade de seda chinesa dis­ponível, e cujo monopólio Macau detinha, satisfazendo ampla­mente a insaciável procura japo­nesa. Assim, restava-lhes apenas a seda que iam obtendo dos pi­ratas chineses, a intervalos irregu­lares, e sempre após longas e di­fíceis negociações.

Gerou-se, pois, no seio dos Ho­landeses um crescente movi­mento de apoio àqueles que pro­punham a conquista de Macau pela força (Coates 1991: 76).

Em período de União das Coroas da Península Ibérica, os inimigos de Espanha passaram a ser os mesmos dos portugueses e, estando Filipe III de Espanha “(…) naturalmente mais interessado em salvaguardar as colónias fundadas pelos Espa­nhóis que em dar resposta aos pe­didos de reforços lançados pelos Portugueses” (Coates 1991: 73), nada fez para contestar a constitui­ção de Companhias das Índias Orientais por parte dos ingleses e holandeses, estes últimos especial­mente interessados nas colónias portuguesas.

A primeira investida dos holandeses deu-se em 1601. Como a cidade ainda não estava fortificada, entra­ram facilmente, mas a população rapidamente os deteve, acabando esta primeira tentativa de ocupação com o enforcamento de dezoito ho­landeses e a retirada dos seus bar­cos (Coates 1991: 74). Seguiram-se mais tentativas de tomar Macau, mas as hostilidades terminaram temporariamente com o Tratado de Antuérpia em 1609, decretando tré­guas entre a Holanda e a Espanha (e, por consequência, Portugal). Neste período foi desenvolvido um plano de defesa em Macau e cons­truíram-se fortificações militares:

É desta época que datam os for­tes da colina da Barra, à entrada do Porto Interior (a sul da penín­sula), bem como outros dois for­tins, construídos nas duas extre­midades da Praia Grande, para controlo do Porto Exterior.

Os preparativos da cidade mobili­zaram toda a população, incluindo os Jesuítas. Com efeito, toda a área ocupada pelos seus jardins e edifícios no cume do monte foi in­tegralmente coberta por espessa muralha (que ainda hoje ali se er­gue), fazendo-se a comunicação com o Colégio e a Igreja de São Paulo, que lhe eram adjacentes, por uma passagem secreta.

Foi também estabelecida uma fundição, cujo mestre era Manuel Bocarro, peça importante (se bem que ignorada) na transformação das tradições bélicas do Extremo Oriente, com os seus magníficos canhões (comprados por todos os países da região), bem como com outros artefactos (os melhores do género produzidos em toda a Ásia) (Coates 1991: 75-76).

Todos estes preparativos provaram-se essenciais, já que, findo o período de tréguas, os holandeses atacaram Macau outra vez em 1622. Os con­frontos tiveram início em 23 de Ju­nho, com fortes bombardeamentos sobre a cidade, que se encontrava desguarnecida, pois a maioria dos soldados estava fora a auxiliar tropas chinesas. Por consequência, “(…) só cerca de mil pessoas se encontra­vam na cidade, e, dessas, apenas oitenta europeus estariam aptos a pegar em armas” (Coates 1991: 77).

A batalha continuou no dia seguinte, 24 de Junho, dia de São João Bap­tista, com mais bombardeamentos e o desembarque dos holandeses. Austin Coates relata:

(…) a escassa população de Ma­cau – leigos e clérigos, homens livres e escravos – ergueu-se para a defender. Os Jesuítas rapida­mente desalojaram os canhões dos seus postigos originais, po­sicionando-os ao longo da mu­ralha norte do seu seminário-for­taleza. Refira-se a propósito que os padres jesuítas eram peritos em balística, habituados que es­tavam a lidar com a corte de Pe­quim (…).

Neste embate brutal era grande a escassez de armas e homens que as manejassem, especial­mente numa ocasião em que a defesa mais eficaz residia na in­tensidade e na frequência do fogo de artilharia. Mas tal deficiência veio a ser compensada pela pon­taria certeira de um padre-sol­dado. De facto, quando o inimigo se acercava já do sopé do Monte, o padre Rho começou a disparar o seu canhão, cujas balas caíram certeiras sobre os carroções que transportavam a pólvora da força holandesa, que rebentaram com estrondosa explosão. (…)

O grito de batalha lusitano, “Por Sant’Iago!”, brotou a certa altura de um qualquer peito, sendo um segundo depois gritado em unís­sono por todas as gargantas, como em uníssono avançou a multidão, inspirada por uma força comum, caindo de todos os lados sobre o invasor holandês. (…) A coberto da mais intensa fuzilaria, a vanguarda portuguesa enfren­tava já o inimigo em luta corpo a corpo. (…) O comandante da força invasora foi o primeiro a cair, após o que o resto das tropas holandesas, perdendo de vista o seu líder, vacilaram por completo. Momentos depois, tomados de pânico, batiam em retirada, des­fazendo-se das armas, acossados pelos Macaenses, que os perse­guiam pelos campos trespas­sando com as espadas tantos quantos podiam. Uma mulher afri­cana, vestida de homem, matou dois deles com uma forquilha (Coates 1991: 77-78).

Após a estrondosa derrota dos holan­deses, decidiu-se comemorar todos os anos o Dia de São João Baptista como agradecimento e recordação deste feito importante na história de Macau, algo que foi feito ao longo de quase quatro séculos, celebrado como o Dia de Macau até 1999. No entanto, apesar de já não ser feriado, os macaenses não se esquecem desta data e, todos os anos, através das suas associações com sede no terri­tório ou no estrangeiro, continuam a comemorar este dia com uma missa e um chá gordo, mantendo em pleno o seu significado para a comunidade.

Há datas que são marcos fundamen­tais de qualquer comunidade. O 24 de Junho é uma data inapagável da memória macaense: “A vitória de 24 de Junho de 1622, sobre os invaso­res holandeses, marca um dos mais brilhantes feitos do povo de Macau e um imorredoiro padrão nas tradi­ções desta Cidade do Nome de Deus” (Machado 2002: 137).

Sendo uma data específica relacio­nada com a história de Macau, é opinião generalizada na população que não deveria ter sido retirada dos calendários oficiais após a transição de administração.

 

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Monumento que assinala a vitória sobre os holandeses em 1622.

 

Natal

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Convívio de Natal.

 

A comunidade macaense é tradicio­nalmente católica, uma herança dos pais portugueses de tempos de ou­trora, e vive numa cidade repleta de igrejas e capelas, algumas existentes desde os primeiros tempos do esta­belecimento de Macau. Renelde da Silva justifica a religiosidade dos ma­caenses da seguinte forma:

Face à sua pequenez numérica num ambiente de omnipotência política da vizinhança e do relativo aban­dono da Metrópole, os macaenses aprenderam a contar consigo pró­prios, para enfrentar as situações difíceis, por que tiveram de passar.

Para além das suas forças, só po­diam contar com Deus. Daí a sua religiosidade (Silva 2001: 94).

Como para muitos outros católicos, para os macaenses, o Natal é uma festividade muito importante e am­plamente participada. Mas nunca foi só uma festa de família, pois foi sem­pre vivido também com intensidade em estabelecimentos de ensino, em organismos associativos, em empre­sas, em serviços públicos e em insti­tuições de solidariedade social (Ran­gel 2007: 319).

O escritor macaense Henrique de Senna Fernandes descreve assim o Natal no seio da sua família:

O Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comunhão, uma ceri­mónia tocante na Sé Catedral (…).

Logo a seguir, vinham os prepa­rativos para o Natal, as donas de casa atarefadas na cozinha, na confecção do aluar, dos cosco­rões, empadas e fartes, os costu­mados doces da época. Enco­mendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa do meu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso “game-pie” do Lane Crawford. Encomen­davam-se também à Loja de Omar Moosa, mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade “Moura” de Macau (…).

A “missa do galo” desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbra­mento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se co­mia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. Os dias seguintes até os Reis, com quebra do dia do Ano Bom, eram dedicados a ami­gos e conhecidos (Fernandes 1999: 65).

Outro autor dá-nos o seu testemu­nho deste modo:

À missa do galo iam as famílias católicas, a que se seguia a ceia e o ansiado momento de abertura das prendas. As festas prolonga­vam-se no dia de Natal, com al­moço e jantar especialmente con­feccionados para a ocasião, onde não faltavam o peru e outros pra­tos escolhidos pelas donas de casa, elas próprias quase sempre excelentes cozinheiras.

Apesar das grandes modificações operadas nas últimas décadas, muitas destas tradições mantive­ram-se. A quadra festiva também era e é aproveitada para familia­res se reencontrarem e para cada um se lembrar dos amigos, sepa­rados pela distância e pelo tempo (Rangel 2006: 278).

Eis um outro sugestivo relato de um velho residente, José Silveira Ma­chado, originário dos Açores e ex-professor da Escola Comercial Pedro Nolasco, ao relembrar o seu pri­meiro Natal em Macau:

Ainda hoje recordo essa noite de festa e de emoções, que me deu a oportunidade de vir a conhecer, ao longo da minha vivência em Macau, a forma tradicional e muito especial como os macaen­ses preparavam e celebravam esta data tão festiva.

Católicos por tradição, convicção ou devoção, na senda dos hábitos e costumes que os missionários, navegadores e comerciantes para aqui trouxeram das terras de Por­tugal, punham um carinho muito especial nas comemorações do nascimento do Menino de Belém. (…)

À noite todos se preparavam para assistir à Missa do Galo, en­chendo-se de fiéis todas as igrejas da cidade e das ilhas, que, em noites de frio, se embiocavam em agasalhos grossos, porque não havia meios de transporte para os resguardar da inclemência do tempo. (…)

Terminada a Missa e o beija-pé ao Menino, regressavam todos a casa para a consoada em família, em que tomavam parte alguns parentes ou amigos mais chega­dos.

O que se fazia em primeiro lugar, era acender as velas e rezar diante do presépio e pedir graças para toda a família, presentes e ausen­tes.

Vinham então para a mesa grande perú, capão, presunto e todas as outras iguarias que faziam a delícia de todos (…) (Machado 2002: 139-140).

Devido à proximidade de Hong Kong, certos hábitos ingleses nata­lícios foram adoptados por algumas antigas famílias macaenses, como apagarem-se as luzes quando se serve o tradicional Christmas Pud­ding (pudim de Natal), em chamas, no Dia de Natal. Festa universal, comemorada de forma muito idêntica por milhões de pessoas, o Natal tinha e tem as suas especificidades próprias no seio das velhas famílias macaenses.

 

Bibliografia

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COATES, Austin (1991). Macau – Calçadas da História. Trad. Luísa Guedes. Lisboa: Gradiva e Instituto Cultural de Macau.

FERNANDES, Henrique de Senna (1999). “Macau de Ontem” in Luís Sá Cunha (org.) (1999). Macau di nôs-sa coraçám – Me­morandum afectivo para os participantes no III Encontro das Comunidades Macaenses. Pp. 51-69. Macau: Fundação Macau.

MACHADO, José Silveira (2002). Macau na Memória do Tempo. Macau: Edição do Autor.

PESSANHA, Camilo (1927). “Macau e a Gruta de Camões” in Luís Sá Cunha (org.) (1999). Camões nas Paragens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais. Reedição anastática do opúsculo editado em 1927. Pp. 12-15. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

RANGEL, Jorge A. H. (2006). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume II. Macau: Instituto Internacional de Macau.

RANGEL, Jorge A. H. (2007). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume III. Macau: Instituto Internacional de Macau.

RANGEL, Jorge A. H. (2009). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume IV. Macau: Instituto Internacional de Macau.

RIBEIRO, Eduardo (2007). Camões em Macau – Uma certeza histórica. Colecção Ensaios do Meio. Macau: COD.

SILVA, Renelde Justo Bernardo da (2001). A Identidade Macaense / The Macanese Identity. Macau: Instituto Internacional de Macau.

TEIXEIRA, Padre Manuel (1999a). A Gruta de Camões em Macau. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

TEIXEIRA, Padre Manuel (1999b). Camões esteve em Macau. Macau: Fundação Macau e Instituto Internacional de Macau.

Macau e os territórios lusófonos

– uma colecção iconográfica única

no Arquivo Histórico de Macau

João M. Loureiro

 

 

As origens de uma colecção

Quando em Outubro de 1970 visitei pela primeira vez Macau, ainda estudante do terceiro ano de Direito e no âmbito de uma viagem promovida pelo Círculo de Estudos Ultramarinos, estava longe de supor que a minha ligação ao território se iria prolongar de modo permanente e tão particularmente intenso nas duas últimas décadas. O “Notícias de Macau” de 13 de Janeiro de 1971 publicou, na sequência dessa visita, um artigo meu denominado “Portugal no Extremo Oriente”, onde abordei a história do relacionamento multisecular luso-chinês na pequena península localizada nos mares do sul da China.

 

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 Largo do Leal Senado – Macau – C. 1960

 

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Funeral de Lou Lim Ioc – Macau – C. 1927

 

Desde então não mais deixei de me interessar e de seguir os assuntos de Macau, com o mesmo gosto com que acompanhava a evolução e as perspectivas da então África portuguesa, em especial Angola, onde viria a iniciar a minha vida profissional dois anos mais tarde. Recém-formado concorri em 1972 ao Ministério Público ultramarino e fui colocado em Malanje, cidade atraente das terras férteis do planalto nordestino, e durante o período do serviço militar desempenhei, em acumulação, as mesmas funções na capital da província cafezeira do Uíge (então designada por cidade de Carmona). Aqui vivi os primeiros meses da guerra fraticida e anárquica que antecedeu a transição de Angola para a independência, com privações de toda a espécie, mas sobretudo com a incomensurável desilusão de conviver não só com mortes, desaparecimentos e êxodo, mas também com o ruir do sonho de um país livre, pacífico e multirracial.

Regressado a Lisboa nos princípios de Novembro de 1975, compreendi poucos anos depois que em Portugal existia, de forma dispersa, uma valiosa e imprescindível fonte da história do nosso país e dos novos países de língua oficial portuguesa: os postais fotográficos que, desde os fins do século XIX, nos revelavam as imagens das cidades e das vilas, das actividades económicas, dos povos e das culturas das antigas províncias africanas e asiáticas. Nos alfarrabistas e feiras de coleccionismo de Lisboa e arredores apareciam, com bastante frequência, álbuns de postais antigos ou exemplares avulsos que testemunhavam, de forma significativa, e por vezes inédita, o passado recente de tais territórios.

Comecei então a coleccionar, e com o tempo a pesquisa estendeu-se a outros mercados coleccionistas europeus, com especial destaque para uma notável “Carte Expo” que se realiza duas vezes por ano em Paris, congregando coleccionadores e comerciantes de todo o mundo.       

Assim reuni uma vasta colecção sobre o Ultramar Português, que cedo superou em quantidade e abrangência as existentes nas bibliotecas e arquivos portugueses e lusófonos.

 macau lusofonos 3 2014

 Banco Nacional Ultramarino – S. Vicente, Cabo Verde – C. 1935

 

Tudo começou em Macau

A colecção teria permanecido encaixotada e desconhecida se não fosse Macau! Em 1995, um grande amigo dos tempos descomprometidos da juventude e então membro do governo do território, teve a iniciativa e a responsabilidade de promover a primeira exposição da minha colecção e, na sua sequência, patrocinar a edição do meu primeiro álbum “Postais Antigos de Macau”. Jorge Rangel, actualmente presidente do Instituto Internacional de Macau, foi portanto o grande impulsionador do posterior desenvolvimento da colecção e da notoriedade que viria a ter.

Não é possível visualizar integralmente os espaços, os instrumentos e as personagens da história recente de Portugal em terras tropicais de África e do Oriente, que se concretizam e potenciam a partir dos finais de oitocentos, sem recorrer às imagens dos postais fotográficos. A colecção que reuni sobre os países e territórios que formaram o antigo ultramar, tem como limite temporal o ano de 1975, altura em que se completaram os processos de independência conferidos pela terceira república portuguesa. Só Macau ficou em aberto até Dezembro de 1999, data em que ocorreu a transferência da administração portuguesa para a República Popular da China.

Através dos exemplares que a integram é possível rever as cidades e as povoações, os edifícios públicos e religiosos, as plantações e as roças, as actividades comerciais e os mercados, as pontes e os caminhos-de-ferro, os tipos humanos e os costumes, e ainda revisitar acontecimentos de relevo, tais como as operações militares no sul de Angola no princípio do século XX ou a viagem do Príncipe D. Luís Filipe às colónias, a proclamação da República em Cabo Verde ou Moçambique e a primeira feira industrial de Macau em 1926. Afigura-se-me portanto que a dimensão e âmbito desta colecção a posicionam como uma importante fonte das histórias contemporâneas não só de Portugal mas também dos diversos países e territórios de língua oficial portuguesa.

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 Vista Aérea – Bissau, Guiné – C. 1957

 

Esta mesma conclusão tem sido corroborada por diversos historiadores que a ela acederam, directa ou indirectamente através das exposições e edições dela derivadas. Limito-me aqui a transcrever duas dessas opiniões. O Professor Francisco Bethencourt, do King’s College de Londres e então Director do Centro Cultural da Fundação Gulbenkian em Paris, considera que se trata de “... uma colecção única cuja consulta João Loureiro tem tido a generosidade de facultar aos investigadores. Na nossa opinião é impossível trabalhar sobre as antigas colónias portuguesas nos séculos XIX e XX sem utilizar este acervo de imagens”. René Pélissier, um dos maiores especialistas sobre a história da África de expressão portuguesa, designou-a de “monumento único”. “É verdadeiramente impressionante e ridiculariza as modestas – e outrora por vezes inacessíveis ao historiador estrangeiro – colecções oficiais existentes em Portugal.... O trabalho colossal de João Loureiro marca uma viragem capital na recolha de iconografia colonial, não só no antigo império português mas em todas as restantes colonizações. ... Os oito grandes volumes publicados por João Loureiro constituem uma colecção iconográfica que não tem concorrentes em todo o mundo, quer pelo número de páginas e de imagens apresentadas quer pela sua variedade e interesse documental”. As imagens que acompanham este breve artigo são por si bastante elucidativos de tudo quanto se referiu sobre o valor do postal como fonte incontornável da história.

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 Uma rua da cidade – S. Tomé e Príncipe – C. 1930

 

Tudo ficará em Macau

A colecção de 10.800 postais fotográficos que reuni ao longo de duas décadas, que baseou a edição de dezassete álbuns temáticos e a realização de exposições em Macau, Goa, Lisboa, Paris e Maputo, foi recentemente adquirida pelo Arquivo Histórico de Macau. Esta instituição designou uma equipa técnica que se encontra a proceder à sua reorganização assente em critérios de metodologia arquivística, que tenho acompanhado e que estou seguro que facilitarão de sobremaneira a sua consulta e acesso por académicos e pesquisadores. “Macau e os territórios lusófonos” – assim se rebaptizou a colecção –constituirá com toda a certeza uma referência imprescindível na iconografia dos PALOPS e territórios do Oriente.

A minha decisão de a enviar para Macau tem a ver com uma reflexão prévia que fiz sobre os seus possíveis destinos. Não desejava de todo que, por minha morte, a colecção fosse poupada nos primeiros tempos, depois esquecida e mais tarde alienada porventura de forma displicente. Queria sentir-me confortável por, com lucidez e critério, poder garantir a sua integridade e acessibilidade por quem se interessasse pelos seus conteúdos. Ora é indubitável que a China, através de Macau, está a apostar fortemente no desenvolvimento do seu relacionamento com os países e territórios lusófonos contemplados no acervo de imagens que reuni.

Para o justificar plenamente basta recordar que em 2013 assinalou-se o décimo aniversário do estabelecimento do Forum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Oficial Portuguesa, sendo que esta plataforma de contactos não prescinde de quaisquer valências ligadas ao saber e ao conhecimento sobre as suas áreas de actuação.

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 Vista parcial – Luanda, Angola – C. 1965

 

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 Vista parcial – Lourenço Marques, Moçambique – C. 1910

 

A RAEM ficará assim a dispor, através do seu Arquivo Histórico – actualmente integrado no prestigiado Instituto Cultural de Macau – de uma colecção iconográfica única, sem paralelo em outros arquivos congéneres. E para mim, que a iniciei e expandi, é com enorme orgulho e alegria que a vejo ficar sedeada numa instituição de excelência cuja Directora, a Dra. Lau Fong, desde o primeiro momento entendeu integralmente o seu significado e valor. Ficará assim no singular e fascinante território de Macau a colecção que criei e consolidei ao longo de duas décadas. Oxalá dela se possam aproveitar e beneficiar todos os que se interessam pelo passado e pelo futuro do mundo ímpar da lusofonia.

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Palácio do Governador – Pangim, Goa – C. 1925

 

 

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Caçando um crocodilo – Timor – C. 1960

 

 

NOTA: Edições desta colecção disponíveis no Instituto Internacional de Macau, na plataforma IIM BOOKSHOP: Clicar neste link para acesso desta colecção no IIM Bookshop

Notas sobre três referências culturais da comunidade macaense

Alexandra Sofia Rangel

Investigadora do IIM

 

Neste artigo são recordadas três distintas e marcantes personalidades, tidas generalizadamente como figuras de referência cultural da comunidade macaense: Luís Gonzaga Gomes, José dos Santos Ferreira (Adé) e Henrique de Senna Fernandes.

 

Luís Gonzaga Gomes

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Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907 e faleceu a 20 de Março de 1976. Começou a escrever aos 14 anos, quando frequentava o Liceu de Macau, onde foi aluno de Camilo Pessanha e colaborou no jornal A Academia, que também contou com a pena do seu amigo e colega Joaquim Paço d’Arcos, que se tornaria um grande escritor da língua portuguesa, filho do então Governador de Macau, Henrique Monteiro Correia da Silva (Paço d’Arcos) (Teixeira 1986: 466). Após concluir o liceu, ingressou na Repartição Técnica do Expediente Sínico,1 onde se dedicou ao estudo do chinês, formando-se como intérprete de 1ª classe (Teixeira 1986: 469). Foi professor primário durante 24 anos ao mesmo tempo que aprofundou os seus conhecimentos da língua chinesa, que lhe permitiram ensiná-la no Liceu de Macau e na Escola dos Correios, Telégrafos e Telefones (Batalha 2007: 9).

Ao longo da sua vida, Luís Gonzaga Gomes trabalhou muito no sentido do enriquecimento do diálogo cultural luso-chinês, efectuando traduções e compilações, realizando estudos e escrevendo artigos em jornais e livros. Publicou em chinês uma tradução de Os Lusíadas contados às crianças de João de Barros (1942), História de Portugal (1955), Vocabulário Português-Cantonense (1941) e Vocabulário Cantonense-Português (1942). Das obras em português destacam-se Monografia de Macau (1950), Contos Chineses (1950), Lendas Chinesas de Macau (1951), Curiosidades de Macau Antiga (1952), Chinesices (1952), Festividades Chinesas (1953), Arte Chinesa (1954) e Efemérides da História de Macau (1954) (Teixeira 1986: 479-480).

Como afirma Graciete Batalha, no prefácio do livro Macau Factos e Lendas, uma compilação de artigos de Luís Gonzaga Gomes, “Mais de 30 volumes publicados, mais de 20 jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuir para o intercâmbio cultural luso-chinês” (Batalha in Gomes 1994: 5). E no seu opúsculo Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-Chinês, “(…) houve em Macau um homem silencioso e tenaz que, sem grande apoio moral ou material (…) dedicou grande parte da sua vida ao estudo da língua e da cultura chinesa, ao mesmo tempo que da ocidental, e ao meritório trabalho de as dar a conhecer uma à outra” (Batalha 2007: 9). Em Macau Factos e Lendas, Luís Gonzaga Gomes conta uma história relativa a duas árvores no jardim do templo de Kun Iâm, a Deusa da Misericórdia, onde “(…) reina sempre profundo silêncio e um ar de mistério bem propícios para quem nele intente buscar o recolhimento e a paz de espírito” (Gomes 1994: 69). Segundo esta lenda, antes de existir o templo, aquela área era ocupada por um pequeno povoado. Um dos lavradores, mais abastado que os seus vizinhos, vivia apenas com a sua filha e dois empregados. A filha e um dos empregados acabaram por se apaixonar, e ele foi pedir ao lavrador autorização para casar com ela. Este não consentiu e proibiu os dois jovens de se encontrarem novamente. Desesperados com a sua situação, os dois resolveram suicidar-se,

(…) pois talvez conseguiriam alcançar a felicidade noutro mundo, uma vez que não poderiam ser felizes neste (…) e, depois de se abraçarem e chorarem muito, enforcaram-se, corajosamente, cada um, nos ramos de duas árvores que cresciam isoladas naquele local. (…) E, fenómeno que causou tão grande espanto, as duas árvores, onde os dois desgraçados amantes se suicidaram, passaram, daí em diante, a desenvolver-se com extraordinária pujança, mas com os seus troncos abraçados um ao outro, como dois seres envolvidos num forte amplexo e com o estranho aspecto com que ficou até hoje (Gomes1994: 70-71).

Este local é um dos mais visitados em Macau, quer por residentes, quer por turistas. Luís Gonzaga Gomes foi conservador do Museu Luís de Camões,2 director da publicação Arquivos de Macau, director-bibliotecário da Biblioteca Central de Macau, vice-presidente e presidente da Comissão Administrativa do Leal Senado,3 secretário da Comissão da Defesa e Valorização do Património Artístico e Histórico da Província de Macau, secretário da comissão de instalação do Arquivo Central de Macau, além de ter igualmente desempenhado cargos em organismos da sociedade civil, como presidente do Rotary Clube de Macau, secretário do Círculo de Cultura Musical e do Círculo Cultural de Macau e secretário da Associação Desportiva Macaense. Foi também director da Emissora de Macau, correspondente da Agência ANI, chefe de redacção e administrador da revista Renascimento, secretário-geral e redactor do diário Notícias de Macau e colaborador de numerosas publicações periódicas locais, nacionais e estrangeiras (Rangel 2007: 14-15).

Além da sua actividade profissional, nos tempos livres, Luís Gonzaga Gomes representou Macau em ténis contra grupos de Hong Kong, tocou violino no Grupo de Amadores de Teatro e Música, participou como cantor em concertos e programas de rádio e adaptou e foi actor em peças radiofónicas (Teixeira 1986: 477). No entanto, era conhecido por ser uma pessoa solitária, dedicada aos seus trabalhos de investigação: “Luís Gomes foi o melhor e o mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia no pó dos Arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento. Era um verdadeiro anacoreta” (Teixeira 1986: 473-474).

Em 2007, comemorou-se o centenário do seu nascimento, com um muito variado programa que incluiu uma missa e homenagem junto da sua campa no Cemitério de S. Miguel, uma exposição fotobiográfica, lançamentos de reedições de obras suas e palestras sobre a sua vida e obra. Onze entidades da sociedade civil de Macau assinaram um protocolo de cooperação na organização e promoção destas comemorações. Foi também reactivado o Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, com sede na Sala Luís Gonzaga Gomes no Instituto Internacional de Macau (Rangel 2007: 27). Entretanto, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, ao reestruturar as suas subunidades de intervenção cultural, criou em Lisboa, em 2016, com a colaboração do Instituto Internacional de Macau, o Instituto Luís Gonzaga Gomes – Portugal, Macau, China. O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma rua de Macau e a uma escola secundária e o seu busto, da autoria do escultor italiano Oseo Acconci, encontra-se no Jardim dos Poetas, numa zona nova da cidade de Macau. Foi condecorado pelo Estado Português com o grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique e, por decisão do Governador de Macau, foi-lhe atribuída, a título póstumo, a Medalha de Valor, a mais alta condecoração de Macau na vigência da administração portuguesa. O Governo Francês concedeu-lhe o grau de Cavaleiro da Ordem das Palmas (Rangel 2007: 16).

 

José dos Santos Ferreira (Adé)

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José Inocêncio dos Santos Ferreira, conhecido por Adé, nasceu em Macau a 28 de Julho de 1919, o mais novo de dezoito irmãos, filho de mãe macaense e pai português, natural de Seia que, nesse mesmo ano, partiu para Timor em busca de fortuna, trabalhando como comerciante. Morreu pouco tempo depois, deixando a família quase na miséria (Marreiros 1994: 21-22). Por este motivo, o pagamento das propinas e outras despesas escolares foi bastante difícil para José dos Santos Ferreira, deixando o Liceu de Macau aos dezassete anos para procurar emprego. Foi auxiliar de topógrafo e fiscal de obras antes de cumprir o serviço militar obrigatório. Entrou no quadro da Secretaria dos Serviços de Saúde em 1943 e, em 1956, foi nomeado chefe de Secretaria no Liceu de Macau, onde “(…) preocupou-se imenso e muito batalhou para que os alunos, filhos de famílias de condições económicas modestas, tivessem isenção de todas as propinas – matrícula, frequência e exames – e livros e material didáctico necessários (…) Muitos alunos beneficiaram dessa sua preocupação” (Marreiros 1994: 22). Conseguiu, portanto, que vários jovens não tivessem de passar pelo mesmo que ele, dando-lhes oportunidades e incentivando-os a continuar os estudos, especialmente quando, em 1964, se tornou secretário da STDM– Sociedade de Turismo e Diversões de Macau e convenceu os proprietários da empresa a instituir bolsas de estudo para o ensino secundário, universitário e pós-universitário (Marreiros 1994: 22-23).

Entusiasta de jornalismo, colaborou em vários periódicos locais, fez parte do corpo redactorial do Notícias de Macau e foi chefe de redacção de O Clarim, Comunidade e Gazeta Macaense. Foi correspondente dos jornais portugueses Diário de Notícias, Diário do Norte e Diário Popular, do jornal de Hong Kong China Mail e da agência noticiosa Associated Press (Marreiros 1994: 23). José dos Santos Ferreira também gostava de desporto e praticou futebol, atletismo, ténis e hóquei em campo, tendo desempenhado cargos e organizado competições no Hóquei Clube de Macau, Associação de Futebol de Macau, Conselho de Desportos, Ténis Civil, Associação de Hóquei em Campo de Macau e Associação de Tiro de Macau (Marreiros 1994: 23). Integrou a Mesa Directora da Santa Casa da Misericórdia e a Direcção do Clube de Macau e foi presidente do Rotary Clube de Macau. Pelo Governo Português foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique (grau de Cavaleiro) em 1979 e, do Governo de Macau, recebeu as medalhas de Mérito Desportivo e de Mérito Cultural em, respectivamente, 1983 e 1984 (Marreiros 1994: 25).

Além de todas estas actividades, foi na escrita, principalmente na poesia, em que ele mais se destacou, recuperando o dialecto macaense e dando-lhe uma nova vida nas suas récitas e poemas, sendo o seu maior divulgador, publicando as seguintes obras em patuá: Macau Sã Assi (1968), Qui-nova, Chencho (1974), Papiá Cristãm di Macau (1978), Camões, Grandi na Naçám (1982), Poéma di Macau (1983), Macau di Tempo Antigo (1985), Natal – Amor, Paz, Alegria (1986), Acunga Natal qui nôs já sunhá (1988), Macau, Jardim Abençoado (1988), Sã Natal, Jesus já nascê (1989), Luz di Natal (1990), Dóci Papiaçám di Macau (1990), Natal Cristãm (1991) e Poema na Lingu Maquista (1992) (Marreiros 1994: 26-27).

No entanto, apesar de ter uma vida preenchida, o poeta, por dentro, estava a sofrer com o futuro próximo da sua terra natal:

(…) cada vez mais negro estava também, segundo ele, o horizonte da sua amada terra que um dia acordaria chinês. O poeta que sempre acordou português, em todas as madrugadas, não podia continuar a conviver com a angústia de um dia acordar chinês. Nunca se acostumou à ideia, por isso, foi morrendo por dentro, pedaço a pedaço, despedaçado. Essa foi a sua morte, para quem o conhecia (Marreiros 1994: 25).

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José dos Santos Ferreira faleceu num hospital de Hong Kong, a 24 de Março de 1993. O seu poema “Adios di Macau” (“O Adeus de Macau”), escrito dez anos antes da transferência de administração, é revelador do estado de espírito do poeta, traduzindo a sua profunda mágoa com o destino traçado para a sua terra. Transcrevo a primeira parte desse poema, em patuá e na versão portuguesa, também da sua autoria:

 

“Adios di Macau”

Macau ta perto falá adios

Pa tudo su filo-filo,

Pa Portugal,

Pa gente qui divera querê pa êle.

Quim têm êle na coraçám,

Lôgo sentí grándi margura;

Voz lô ficá engasgado na gargánta

Na ora di falá adios pa Macau.

Ah! Divera saiám, nôsso Macau!

Qui dói coraçám olá vôs têm-qui vai,

Escapulí di nôsso vida,

Vivo separado di nôsso Portugal.

Nôs nom-quêro vôs vai,

Vôs onçôm tamêm nom-quêro vai…

Mâz quim sã nôs

Na estunga mundo di gente poderoso,

Cuza sã nôs

Na estunga mar di ónda assanhado?

Têm más dez áno,

Dez áno na-más.

Tempo corê ligéro,

Trás di tempo, tudo passá azinha.

(…)

(Ferreira 1990: 27).

 

“O Adeus de Macau”

Macau está quase a dizer adeus

A todos os seus filhos,

A Portugal,

Às pessoas que a amam verdadeiramente.

Aqueles que a guardam no coração

Hão-de sofrer grande mágoa;

A voz lhes ficará embargada na garganta

No momento de dizerem adeus a Macau.

Oh! Que grande pena, nossa Macau!

Que sofrimento saber que terás de ir,

Sair da nossa vida

E viver desacompanhada do nosso Portugal.

Não queremos que vás,

Nem tu própria quererás ir…

Mas quem somos nós

Neste mundo de gente poderosa,

O que somos nós

Neste mar de ondas agrestes?

Faltam dez anos,

Apenas dez anos.

O tempo corre veloz

E atrás do tempo tudo desliza ligeiro.

(…)

(Ferreira 1990: 201).

 

A comunidade macaense adaptou-se ao novo estatuto de Macau, como região administrativa especial da República Popular da China e continua, localmente e na diáspora, a recordar Adé como um dos seus filhos mais dilectos.

 

Henrique de Senna Fernandes

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Henrique Rodrigues de Senna Fernandes nasceu em Macau a 15 de Outubro de 1923, oriundo de uma das mais antigas famílias do território. Fez os ensinos básico e secundário em Macau. Terminou, em 1952, o curso de Direito na Universidade de Coimbra e regressou a Macau dois anos depois, exercendo advocacia desde então. Foi também professor na Escola Primária Oficial, no Liceu Nacional Infante D. Henrique, na Escola do Magistério Primário e na Escola Comercial Pedro Nolasco, de que foi director durante doze anos, sendo recordado com saudade e admiração por milhares de alunos que o consideram um dos melhores mestres de gerações de jovens de Macau (Rangel 2006: 101).

Desempenhou cargos em organismos públicos e associativos, como director da Biblioteca Central de Macau e da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, director do Centro de Informação e Turismo do Governo de Macau, membro do Conselho Consultivo do Governador de Macau, presidente do Rotary Clube de Macau, presidente da Assembleia Geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e presidente da Associação dos Advogados de Macau (Rangel 2006: 101). Foi colaborador em vários periódicos de Macau, como A Voz de Macau, Notícias de Macau, O Clarim, Gazeta Macaense e Ponto Final, e nas revistas Mosaico e Revista de Cultura. Foi também crítico de cinema na Emissora de Radiodifusão de Macau (Rangel 2006: 102).

Henrique de Senna Fernandes publicou duas compilações de contos, Nam Van – Contos de Macau (1978) e Mong Há (1998), e dois romances, Amor e Dedinhos de Pé (1985) e A Trança Feiticeira (1993), este último com uma tradução em língua inglesa, The Bewitching Braid. Os dois romances foram levados ao cinema: Amor e Dedinhos de Pé foi realizado por Luís Filipe Rocha em 1993, e A Trança Feiticeira por Yuanyuan Cai em 1996. Os actores principais foram, respectivamente, Joaquim de Almeida, no papel de Francisco da Frontaria, e Ricardo Carriço, no papel de Adozindo. O seu conto “A-Chan, a Tancareira”, vencedor do Prémio Fialho de Almeida dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950 da Universidade de Coimbra, relata a história de amor em Macau entre uma chinesa pobre, tancareira, 4 chamada A-Chan, e um marinheiro português, Manuel, nos inícios da década de 40 do século XX. Destaco a seguinte passagem que traduz a atracção de Manuel por A-Chan:

A-Chan trazia-lhe paz na sua determinada dedicação. Chocava-o aquela submissão de fêmea amorosa que nada pedia. Uma calada devoção que o enternecia. Gostava de ficar ao pé dela a seguir a marcha rutilante das estrelas, a paisagem nocturna de Macau, o casario da Penha e o da Barra, diluídos em sonho no fundo azul da noite. Era feia, ignorante, açulada pela canga do rio. Mas os olhos orientais não escondiam uma imensa ternura pelo marinheiro saudoso do mar. Sensibilizava-o a maneira como lhe sorria, como lhe oferecia a tigela de chá ou como lhe passava os dedos calosos e ásperos pelos seus cabelos loiros de europeu, num requinte de familiaridade. Falavam pouco, entendiam-se mais por gestos que por palavras. Mas que reconfortantes os silêncios em que ela se apagava num canto do tancá para não lhe perturbar as meditações (Fernandes 1978: 11-12).

Manuel e A-Chan, apesar de não estarem casados, acabam por ter uma filha mestiça, com “cabelos aloirados, tez quase branca, olhos claros, a denunciar ascendência europeia” (Fernandes 1978: 14). Viveram juntos mas, com o fim da Guerra no Pacífico, Manuel é obrigado a regressar a Portugal:

Tornou-se-lhe obsidiante o problema da filha. Não tinha coragem de renunciá- la. Que futuro lhe reservaria a tancareira? Cresceria no ambiente soturno do porto, acompanharia a mãe nos espinhos do ofício, maltratada pelo mundo e pela fome que é o estigma de todas as camadas paupérrimas da China. E depois, Mei-Lai não tinha feições puras de oriental. Só por si denunciava uma pecaminosa ligação com o europeu. Nunca vira mestiças a trabalhar no rio. Para outros caminhos as levara o destino. Para os bordéis, para as hospedarias das vielas do amor. Em toda parte, onde nasciam rebentos clandestinos de europeus, a prostituição lucrava. Não, não podia abandonála (Fernandes 1978: 16).

Sabendo que só ele poderia oferecer uma vida melhor à sua filha ilegítima, Manuel leva-a com ele para Portugal, abandonando A-Chan no porto, ouvindo os seus “(…) soluços (…). Espaçados, pungentes, envergonhados” (Fernandes 1978: 18). Henrique de Senna Fernandes foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública (1978), a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (1986), a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Macau (1989), a Medalha de Valor do Governo de Macau (1995), o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada (1998), o título de Cidadão Emérito de Macau (1999) e a Medalha de Mérito Cultural da Região Administrativa Especial de Macau (2001) (Rangel 2006: 101-102). Em 2003, foi eleito académico correspondente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e, em 2004, recebeu o Prémio Identidade do Instituto Internacional de Macau, destinado a contemplar “(…) personalidades ou instituições que, pela sua acção, obra e exemplo, hajam contribuído, activa e significativamente, para a preservação e o reforço da identidade de Macau” (Rangel 2006: 100). O Instituto Internacional de Macau quis homenagear, “(…) com toda a justiça, o escritor, o professor, o jurista, o bibliotecário e o dirigente dedicado de organismos locais, públicos e privados, que muito contribuiu para a afirmação da identidade cultural de Macau, sendo por muitos considerado o patriarca da comunidade” (Rangel 2006: 103).

Henrique de Senna Fernandes faleceu no dia 4 de Outubro de 2010. Não obstante problemas de saúde que limitaram a sua intervenção cívica e cultural, continuou nos últimos anos da sua vida a ser um membro activo de várias organizações, como o Conselho das Comunidades Macaenses e a Confraria da Gastronomia Macaense. Na nota de abertura do seu livro de contos Nam Van – Contos de Macau, escreveu: “Se alcancei o meu objectivo, ficarei grato por saber que prestei um serviço à minha terra” (Fernandes 1978: 4). É óbvio que sim. O Instituto Cultural de Macau assumiu, entretanto, a responsabilidade de publicar as obras completas de Henrique de Senna Fernandes, cujos primeiros volumes foram o romance inédito Os Dores, em 2012, a que se seguiram as reedições de Amor e Dedinhos de Pé e A Trança Feiticeira e, em 2015, A Noite Desceu em Dezembro, um novo romance parcialmente publicado no jornal Ponto Final.

 

***

Estes três escritores macaenses, para além das relevantes obras que nos legaram, tiveram uma intervenção cívica da maior importância, contribuindo decisivamente para o reforço da singularidade de Macau. A sua memória continuará certamente a estimular novas gerações da comunidade macaense a enfrentar, com sucesso, os acrescidos desafios que as mudanças históricas verificadas na terra-mãe e na diáspora lhes lançaram.

 

Bibliografia

BATALHA, Graciete Nogueira (2007). Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-Chinês. Colecção Mosaico. Volume III. Macau: Instituto Internacional de Macau.

FERNANDES, Henrique de Senna (1978). Nam Van – Contos de Macau. Macau: Edição do Autor.

FERREIRA, José dos Santos (1990). Doci Papiaçám di Macau. Colecção Poetas de Macau. Volume I. Macau: Instituto Cultural de Macau.

GOMES, Luís Gonzaga (1994). Macau Factos e Lendas. 3.ª edição. 1.ª edição 1979. Macau: Instituto Cultural de Macau.

MARREIROS, Carlos (1994). Adé dos Santos Ferreira – Fotobiografia. Macau: Fundação Macau.

RANGEL, Jorge A. H. (2006). Falar de Nós: Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro. Volume II. Macau: Instituto Internacional de Macau.

RANGEL, Jorge A. H. (2007). No Centenário de Luís Gonzaga Gomes. Colecção Mosaico. Volume VI. Macau: Instituto Internacional de Macau.

TEIXEIRA, Monsenhor Manuel (1986). Liceu de Macau. 3.ª edição. 1.ª edição 1944. Macau: Direcção dos Serviços de Educação.

A Imagem dos Portugueses na Mira dos Chineses e dos Macaenses

Álvaro Rosa

Ana Cristina Alves

Docentes Universitários

 portugueses mira chineses 1

Lisboa vs. Macau

Os manuais da Economia ensinam-nos que o progresso económico de um país é espelhado, em larga me­dida, no poder de compra da classe média desse país. A aplicação deste conceito à realidade chinesa res­ponde à evidência de que o desenvolvimento económico da China nos últimos trinta anos tem gerado uma classe média que se estima rondar os 180 milhões de pessoas. É bom sinal para o mundo, pois, são mais 180 milhões a consumir, a viajar e a instalar-se nos hotéis. Segundo as estatísticas oficiais, visitam Portugal, por ano, cerca de 300 mil chineses. A este número somam-se uns dois milhares de estudantes e existem mais de 20 mil os que decidiram fixar-se por cá.

Bem longe do tempo presente que corre em que vemos chineses por tudo quanto é sítio, a nossa opinião sobre os chineses já estava bem for­mada. Os arquétipos mais comuns que os portugueses têm relativa­mente a esta nação asiática são: “os chineses comem arroz”, “são pacien­tes” e “praticam artes marciais”. É importante que se diga que arquéti­pos são ideias baseadas em obser­vações de uns quantos, em regra polarizadas num determinado sentido e não correspondem, na maior parte das vezes à realidade. Por exemplo, no caso do arroz, apenas os chineses das regiões meridionais da China consomem arroz regularmente, por­quanto que os chineses nortenhos, consomem muito mais pão ou massa. Quanto à “paciência do chinês”, diríamos que são tão impacientes quanto o são os portugueses, ape­nas são menos reativos. No que respeita às artes marciais, em termos proporcionais, serão tantos os chi­neses a praticar o kung fu quanto os portugueses que praticam karaté.

Porém, a discussão que propomos neste trabalho não se centra na nossa perceção do chinês, mas an­tes, a perceção que os chineses têm de nós, da nossa cultura e do nosso comportamento na sociedade.

A este propósito, um artigo interes­sante de Fok Kai Cheong (1987), na­tural de Macau, publicado em livro, dava-nos as primeiríssimas perce­ções que os chineses tinham dos portugueses do século XVI. Dizia o Professor Fok que os portugueses eram assustadores! Com certeza, basta recordarmo-nos que foram os portugueses os primeiros ocidentais a chegar às costas da China. À ex­ceção dos homens do mar, até aí, os nativos locais nunca tinham visto um ocidental.

Conta a história que foi Jorge Álva­res o primeiro navegador a acostar o sul da China, algures no delta do rio das Pérolas, no ano 1513. E, três anos mais tarde, o capitão Fernão Peres de Andrade chega a Cantão e tentará levar uma embaixada liderada por Tomé Pires até ao Impera­dor, por volta do ano 1520, a fim de estabelecer relações comerciais for­mais com a China, façanha que re­dundará em falhanço, devido a vá­rios motivos, entre os quais, intrigas criadas pelo deposto rei de Malaca junto da corte imperial chinesa. Nos anos de 1521 e 1522, houve novas tentativas da parte portuguesa em estabelecer relações comerciais com a China, porém, nada de frutífero foi possível por que a China entendeu banir todo e qualquer negócio com estrangeiros.

Como resultado, a chegada dos pri­meiros portugueses à China foi re­cheada de incidentes e infelicidades. Logo, as primeiras impressões dei­xadas não podiam ser favoráveis. Fok dizia que os primeiros registos das impressões chinesas da altura davam conta de que os portugueses eram uma espécie de goblin, “por­tadores de apenas parecenças su­perficiais com o ser humano normal e… descendiam de antigos cani­bais”. Os seus corpos tinham formas estranhas, os seus trajes bizarros e o seu comportamento abjeto.

Os mesmos registos descreviam, ainda, os portugueses como enormes de “sete pés”, com nariz grande, tez clara, boca em bico e olhos de gato. A sua barba era farta e encaraco­lada, enquanto que a cor dos cabe­los se aproximava do vermelho. Mas, também havia outros que eram carecas e com barba feita.

O que mais causava impressão aos chineses era o comportamento dos portugueses. Como estes não cum­priam o preceito tradicional da cul­tura chinesa, os locais igualavam as gentes lusas a animais. Diziam que os portugueses só se pareciam com humanos quando estavam bem-dis­postos e que “a sua natureza animal prevalecia quando perdiam a boa temperança” (Fok, 1987).

Os portugueses eram tão mal vistos que os indígenas locais os conside­ravam canibais – comiam crianças ao pequeno-almoço. Fok argumen­tava que a violência dos portugue­ses e o seu ímpeto de resolver tudo à espada e às armas de fogo fizeram com que tivessem essa imagem tão negativa.

Efetivamente, os portugueses foram proibidos de todo o comércio na costa chinesa desde os incidentes de 1521-1522 e só voltaram a acos­tar nessas margens depois de 1550.

Esses tempos já lá foram.

Hoje, à força de sucessivas vagas de globalização, os povos aproxima­ram-se. O comércio foi e continua a ser o grande veículo de aproxima­ção dos povos. A reboque, vem o turismo que desperta para o conhe­cimento do desconhecido, para o deleite dos nossos sentidos e, para a experimentação de novas vivên­cias. Na nossa era, nenhum povo ja­mais espantará pela aparência física de qualquer outro, contudo, cada sociedade mantém os seus traços culturais ancestrais e quando elas se comunicam concorrentemente de­notam-se as respetivas diferenças.

Ora, o português tem uma estrutura mental e uma base cultural muito distinta da do chinês. Quando um chinês decide viver em Portugal, a ele exige-se uma adaptação ou, pelo menos, uma compreensão do modo de estar e de agir do portu­guês para que lhe seja possível lidar com o dia a dia. E, neste caminhar da compreensão (ou de adaptação) cria-se uma determinada imagem do que é o português.

Queremos sublinhar que a imagem que o chinês tem da gente lusa não tem de coincidir com a imagem que o japonês ou o austríaco tem de nós. Serve-nos de exemplo a questão da pontualidade. Para nós, a hora acor­dada é simplesmente uma referência temporal – marcar um jantar para as 19 horas significa que a partir dessa hora nos encontramos para a refei­ção. Ninguém se aborrece se che­gamos 15 ou 20 minutos mais tarde. Naturalmente, sabemos que para um alemão, essa dilação é uma ofensa, no entanto, para um amigo nosso do Brasil, 19h20 é a hora correta de sair da casa porque o jantar é o início do convívio que durará a noite toda. É imprescindível aceitar que diferen­ças culturais não implicam a noção de bem ou de mal. Nunca podemos dizer que estes povos estão certos ou aqueles errados. Entender a cultura significa tão simplesmente como perceber que diferentes so­ciedades têm comportamento e es­trutura mental diferentes.

Cultural standards

A imagem que os chineses têm dos portugueses que aqui queremos apresentar vem de estudos científi­cos interculturais com base na me­todologia conhecida como cultural standards. Esta metodologia cientí­fica procura identificar as diferenças culturais de um povo para outro sem procurar determinar perfis culturais extensíveis a quaisquer outros gru­pos.

Em termos procedimentais da metodologia cultural standards, são recolhidas entrevistas em elevado número e os dados tratados com técnicas de análise de estudos qua­litativos. E, finalmente, os resultados são apresentados e discutidos com os entrevistados com o fito de avaliar o grau de fiabilidade das conclusões alcançadas. Este procedimento tem por princípio evitar a formação de estereótipos sempre indesejáveis. Dos estudos que conhecemos onde largo número de chineses por cá residentes foram entrevistados, extraí­mos seis dimensões presentes em todos os estudos, ou seja, seis aspe­tos culturais em que os chineses se consideram muito ou totalmente diferentes dos portugueses.

A imagem dos portugueses aos olhos dos chineses

Em primeiro lugar, é o ritmo de vida. Para os chineses, o ritmo quotidiano dos portugueses, seja no âmbito profissional, seja no âmbito indivi­dual ou familiar, é muito menos rit­mado que o dos chineses. Os entre­vistados fazem notar que para além de filas infindáveis nas diversões da Disney em Shanghai ou em Hong Kong, não existem filas na China, nem nas grandes cidades ou quando existem dispersam-se instantanea­mente. Por cá, as pessoas aceitam como normal a existência de filas e o ter de esperar. E, há filas por todo o lado: nos transportes, no super­mercado e até para comprar bilhetes para os espetáculos. Os chineses acham que os nossos jantares são demasiado demorados e entedian­tes. Até a «comida fast» tem a mesma dinâmica que o resto ao con­trário do que se possa encontrar na China. Os chineses têm dificuldade em compreender porque se leva duas ou mais semanas para emitir um cartão bancário ou porque se leva dois dias para receber um pa­cote enviado por correio rápido ou, porque as entrevistas e encontros são marcados com uma dilação de vários dias. Assim acontece porque é este o modo de estar das pessoas, um ritmo relaxado de vida e da acei­tação de «ter de esperar».

É evidente que este ritmo pausado da vida é responsável pelo nosso baixo nível de produtividade, e quando comparado com a Europa, a nossa produtividade é das mais baixas de toda a União Europeia, não porque sejamos menos capazes, mas sim, devido à nossa cultura de vida pausada.

O segundo aspeto cultural, referido pelos chineses, que os distancia de nós é a relativa falta de ambição das pessoas de cá. Segundo os entre­vistados, os portugueses não se im­portam com o seu próprio desem­penho e nem com a sua própria progressão social. De facto, estudos de outros estudiosos de assuntos interculturais, como por exemplo, Hofstede, indicam que os chineses são muito mais competitivos do que os portugueses. O sentido de su­cesso material está sempre presente nas mentes chinesas ao passo que os portugueses preferem o bem- -estar e uma vida sossegada.

O terceiro ponto onde as culturas se distanciam muito é a cultura do lazer. Os portugueses preferem ati­vidades «outdoor» e os chineses, ao invés, preferem entretenimentos «in­door». Estes admiram como os por­tugueses conseguem estar horas a fio na praia, sem fazer nada. É ver­dade que nas nossas praias vemos apenas um por cento das pessoas a nadar e outro um por cento a jogar à bola! Os outros noventa e oito por cento estão deitados a apanhar sol! Os chineses são incapazes desta forma de lazer, se não nadam, têm de comer, se não comem, têm de jogar, se não jogam, têm de dançar, mas parados não conseguem ficar! Efetivamente, os orientais são muito mais inclinados para o entreteni­mento dentro de portas, como se­jam o karaoke ou jogos de cartas, nomeadamente o «mahjong».

portugueses mira chineses 2 Elemento água – típico em jardins chineses

A quarta dimensão apontada pelos chineses como sendo diferente dos portugueses é a cultura gastronó­mica.

Como se sabe, existem muitos pon­tos de contato entre as duas cozi­nhas, nomeadamente, a preferência pelo marisco, o recurso em larga medida a galináceos, o uso regular de leguminosas e vegetais em geral na alimentação quotidiana e, riqueza e variedade de pratos. Abundam, ainda assim, diferenças culturais na relação com a comida: os portugue­ses preferem comida pouco condi­mentada, preferem o realçar do sabor original dos alimentos, ao con­trário dos chineses que preferem comida cozinhada com muito óleo e com muitos molhos. O trigo é o cereal principal na produção de pão cá em Portugal e os portugueses consomem muito pão; na China, o pão é feito, essencialmente, de fari­nha de arroz ou farinha de feijão de soja. O seu consumo varia geografi­camente.

No mundo das bebidas quentes, o uso do chá na China tem o seu con­traponto em Portugal no uso do café. Como é sabido, a expressão massiva do chá na China, tanto no apreço como nos efeitos (a teína, presente no chá, tem o mesmo efeito que a cafeína no café, pois atua como inibidor de sono) tem uma correspondência similar ao pa­pel do café em Portugal: os chineses bebem tanto chá quanto os portu­gueses bebem café. Também pode­mos dizer que se bebe muito chá em Portugal. O que certamente não fazemos é chá com leite – os chine­ses adoram esta mistura, como tam­bém, chá com limão (às rodelas) açu­carado ou com mel. Esta é uma bebida que é usada frequentemente após a refeição do almoço ou ao lanche. Outro pormenor cultural é a arte do chá. Não obstante, os chi­neses não praticarem a arte do chá com a minúcia e folclore como acon­tece no tradicional «cha-no-yu» ja­ponês, os apreciadores de chá executam o que se chama de «kung fu cha», o que se pode traduzir por “preparação laboriosa de chá”. Esta prática requer equipamento ade­quado e taças de porcelana de chá de boa qualidade e um bom conhe­cimento das diferentes nuances de folhas de chá bem como de tempe­raturas de água para atingir os me­lhores resultados.

Outra diferença notória entre os dois povos é o serviço e disposição da refeição. Os portugueses, como todos os povos ocidentais, utilizam mesas quadradas ou retangulares para a refeição e, cada indivíduo tem a porção servida no seu prato. Os chineses comem em mesas re­dondas e os pratos são servidos to­dos ao mesmo tempo, colocados no centro da mesa, em jeito de par­tilha. Os chineses referem ainda que a refeição à portuguesa, sobre­tudo em ambiente mais formal, é bastante demorada, por um lado, porque é assim que as pessoas apreciam, e por outro, porque a co­mida é servida de modo sequencial – primeiro, a entrada, de seguida, a sopa, o prato principal que pode ser repartido em peixe e depois a carne, e por fim, a sobremesa. O costume chinês é servirem os pratos todos ao mesmo tempo, in­cluindo a sopa – as pessoas comem a sopa ao mesmo tempo que co­mem a restante comida, e em regra, não há sobremesa, porque toda a comida chinesa tem um ligeiro sa­bor adocicado de modo que não se sente a necessidade de sobre­mesa no final do repasto.

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Tomando café numa esplanada tipicamente portuguesa

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Uma casa de chá em Macau

A quinta dimensão que os chineses consideram muito distante dos por­tugueses é o conservantismo e a falta de propensão para a inovação.

Os chineses referem que os portu­gueses são muito zelosos no cum­primento das regras e regulamentos, acomodam-se ao estabelecido, o que os torna pouco flexíveis à mu­dança e à aceitação da diferença. Como consequência, o nível de ino­vação e empreendedorismo é redu­zida em Portugal. Os chineses, pelo contrário, acham-se sempre em constante procura de novas soluções para velhos problemas, aceitam a mudança com naturalidade e dis­põem-se a experimentar tudo o que é novo.

Apesar de os chineses não aprecia­rem o conservantismo português reconhecem que este tem efeitos positivos. Entre outros, referem que por os portugueses acatarem as leis com naturalidade, a sociedade por­tuguesa é mais ordeira, como o ato das pessoas validarem os seus títu­los de transporte mesmo sem terem de passar por nenhum sistema de controlo de acesso. O relaciona­mento com os portugueses é fácil e agradável porque consideram que somos previsíveis, diretos na comunicação, sem ambiguidades no uso da palavra e a lógica intrín­seca é bivalente – ou é ou não é. Este aspeto é fácil de compreender, sabendo que os chineses são um povo que utiliza a linguagem indi­reta e contextualizada. Um exemplo disso é no léxico chinês não contém a palavra “não” per si, e como tal, nunca dizem que não, preferindo explicar a rejeição através de expo­sições não lineares com imagens e afins.

A sexta e última dimensão encon­trada é os chineses acharem que os portugueses são entusiastas, mas superficiais no relacionamento in­terpessoal. Os chineses referem que os portugueses, no seu relaciona­mento com estrangeiros, são posi­tivos, otimistas e confiantes. De­monstram enorme vontade de ajudar e são simpáticos. No entanto, e apesar dos beijinhos com que pre­senteiam aos novos conhecidos, os chineses acham que é difícil perten­cer ao círculo de relações chegadas dos portugueses. Acrescem que isso também acontece entre os por­tugueses. Por outras palavras, em termos sociais, o grupo de pessoas chegadas é sempre um grupo muito pequeno e muitas vezes, restringe-se unicamente à família. Dizem os chineses que os portugueses, no seu dia a dia, apressam-se para jan­tar em casa com a família, ao passo que eles preferem não cozinhar e encontrar-se com amigos em res­taurantes.

Os chineses apercebem-se de um facto interessante da cultura orga­nizacional em Portugal: os portu­gueses esforçam-se para criar um ambiente harmonioso (mas superficial) no local do trabalho, onde pro­curam dar-se bem com os colegas e também com o seu superior hie­rárquico mas que não têm o mesmo respeito, veneração e consideração que eles (chineses) têm pelo seu superior hierárquico. Acham que os portugueses obedecem aos seus superiores por razão de dever e nunca de corpo e alma. É curioso essa observação por parte dos chi­neses leva-nos a perceber como intuitivamente praticamos o velho ditado que diz: «manda quem pode e obedece quem deve»!

Simbologia e outras impressões de Portugal no olhar dos chineses e macaenses: Uma experiência concreta

A experiência foi realizada com estudantes na sua grande maioria vindos de Macau e da China do Insti­tuto de Cultura e Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universi­dade de Lisboa no ano letivo de 2015/2016, de nível Avançado do Curso Geral de Português, na disci­plina de Portugal através dos Média. As imagens culturais resultantes des­tes orientais, sobretudo dos chineses e dos macaenses1, concordam, em grande medida, com as de muitos estudiosos portugueses que pos­suem um olhar atento em relação à sociedade portuguesa.

Os aspetos culturais salientados nas imagens construídas, tanto os posi­tivos como os negativos, são retira­dos de diários que foram sendo ela­borados a título de tarefas caseiras ao longo do primeiro semestre do referido ano letivo. Estes foram re­digidos em estilo autobiográfico, contendo as impressões dos alunos sobre a prosperidade ou a pobreza, o engenho ou a falta do mesmo, as festas, a família e o sistema socipo­lítico português, tendo sido poste­riormente organizados e divididos em oito áreas temáticas: Gastrono­mia; Simbolismo; Impressões; Tradi­ções e/ou Hábitos; Geografias; Migrações; Filosofia e Utopia.

Assim, aos seis aspetos culturais ana­lisados anteriormente se vêm juntar mais oito relativos às áreas temáticas pesquisadas.

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Comecemos pela gastronomia, e pelas imagens gastronómicas sus­citadas em Macau, onde como já foi referido, sobressaem as dife­renças culturais, mas com a introdução de um novo e importante dado para análise, vindo da parte dos alunos macaenses, quer per­tencentes à comunidade chinesa stricto sensu quer à que constitui a dos portugueses do Oriente, os filhos da terra macaenses. Distin­gue-se então uma gastronomia de fusão que vai desde os pastéis de nata às mais diversificadas misturas com paladares de antigos territó­rios portugueses, criando uma co­zinha típica da Região Especial que contrariou as expetativas de os es­tudantes a poderem vir encontrar em Portugal. Diz-nos Francisca (Lam Iok Heng, T18, Macau, 2 de outubro, 2015):

“Os pratos macaenses sofreram influência da culinária de vários países, e alguns vieram de países lusófonos. Pensava que a Galinha à portuguesa, o Joelho de Porco Assado com mel, a Galinha à Afri­cana eram pratos típicos de Por­tugal. No entanto, reparei que aqui não existem, pelo menos com esse nome.”

Pelo que quando é dada aos estu­dantes a possibilidade de escolhe­rem entre gastronomia da diferença total ou aquela que advém do cru­zamento de culturas, optam pela cu­linária da fusão, a que lhes traz sau­dades e os transporta à terra natal ou onde vivem há longo tempo. O que acaba de ser afirmado não pode deixar de conduzir à questão de saber quem considerar ma­caense. Não pretendendo entrar por esse campo, de alto valor socioló­gico, mas lateral ao estudo, há no entanto a especificar que aqui se in­cluem nesta categoria todos aqueles que nasceram em Macau, fruto do encontro dos portugueses com chi­neses ou outras etnias asiáticas, ou ainda, os que vindos da China, aí vivem há longo tempo.

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À gastronomia da fusão, segue-se um conjunto de figuras simbólicas portuguesas, distinguidas por estes alunos chineses e macaenses, que mantêm um laço interessante com a tradição, já que ainda hoje são apontadas grandes figuras do fute­bol, e sobretudo Cristiano Ronaldo, tal como na tradição sucedera com Eusébio ou Amália Rodrigues. Tam­bém o fado aparece como símbolo cultural de eleição, mas não ligado a um qualquer fadista em particular. As áreas culturais mais referidas, pela positiva, são as que dão origem aos três “Fs”: Fátima, Futebol e o Fado. O futebol encarnado na figura simbólica de Cristiano Ronaldo, muito enaltecido como o melhor jo­gador do mundo, é ainda pretexto para mostrar como os portugueses não podem receber o rótulo de pre­guiçosos, muito negativo a olhos chineses, já que o CR7 é a prova viva do contrário.2

São ainda mencionados símbolos ar­tísticos como a filigrana ou o azulejo. Entre os trabalhos simbolicamente mais relevantes encontram-se as obras em azulejo e filigrana, cujas tradições são enaltecidas, surgindo o nome da artista Joana Vasconcelos associado a esta última arte, em “Coração Independente Dourado” de 2004.3

Há ainda outros símbolos físicos tão palpáveis e concretos como os ca­fés, ponto de encontro duma cultura que elege o exterior como espaço privilegiado do lazer. Há, porém, um símbolo na mira de chineses e ma­caenses, mais que geográfico, as­sume um valor cultural incondicio­nado em Portugal: o mar, ou melhor, o espírito do mar. Este, enquanto espaço de aventura e descoberta, conduziu os portugueses a todos os cantos do mundo; segundo Minga (Zhou Liumin, T18, China, 11 de ou­tubro, 2015):

“Foi por causa dos descobrimen­tos que os portugueses lançaram e que tiveram origem nos desejos impregnados na alma de se aven­turarem. Hoje em dia há milhões na diáspora, que têm sido inspi­rados pelo espírito do mar que anima este povo, sempre pronto a descobrir mundos diferentes.”

E se hoje somos um povo de emi­grantes, e por alguns chineses consi­derados os ciganos da Europa, tal se fica a dever, na leitura destes estu­dantes, à absorção do espírito do mar que nos anima e orienta para e pelo mundo, numa descoberta incessante de novos povos e suas culturas.

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Pão tipicamente português e baozi chinês

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No que respeita às impressões de Portugal, vemos desenhar-se um aspeto cultural levemente racista, porque, dizem eles, os portugueses no contacto com os outros povos, além da imagem que transmitem, já referida, um tanto superficial e simpática nos relacionamentos, ma­nifestam um certo racismo sobre­tudo ao estabelecerem contacto com asiáticos e africanos. É ténue, não é grave nem mortal, mas inco­modou alguns destes estudantes. Diz Clara (Ho Hio Teng, Macau, 24 de outubro, 2015):

“Mais duma vez, fui discriminada pelos portugueses. Eles aponta­ram-me o dedo, mas apenas pas­sei na rua sem fazer nada de ofen­sivo. Houve um português que nos sugeriu o regresso à nossa terra, deixando Portugal de vez. Outro fez os olhos dele mais pe­quenos para nos incomodar, visto que somos asiáticos e temos olhos de dimensões mais reduzidas.”

E a aluna acrescenta que muitos dos países ainda estão a lutar por con­dições sociopolíticas semelhantes às que se vivem na Europa, pelo que remata quanto a expressões racistas: “A liberdade de expressão é muito valiosa, há imensos países que ainda estão a lutar por ela. Espero que as pessoas com este direito o possam valorizar, sem o desperdiçarem em algo estúpido.” (Ibidem).

Há quem vá mais longe conside­rando que este tipo de racismo se pode encontrar por toda a Europa, abrangendo também árabes. Con­tudo, a maioria dos estudantes prefere saliantar a costela simpática e inclusiva dos portugueses.

Os valores, saídos das revoluções americana e francesa são no geral enaltecidos e considerados importan­tes, sobretudo no que se refere à edu­cação, sendo muito sentida a pressão que as crianças e jovens chineses so­frem numa sociedade altamente competitiva, o que, na perspetiva de mui­tos deles, torna os meninos infelizes por não terem o tempo de lazer ne­cessário a um desenvolvimento equ­liibrado. Também a posição de mu­lher portuguesa na sociedade é vista com muito agrado e louvado o seu estatuto profissional e independente do marido no casamento. Muitos es­tudantes veem como algo de positivo as mulheres não abdicarem da sua personalidade e contribuírem economicamente para a família. É ainda salientado o facto de quanto ficam sozinhas, continuarem a lutar. Há até quem coloque a hipótese de a futura presidência da república portuguesa ser entregue a uma mulher.4

Entre as impressões mais negativas conta-se a provocada pelas greves. Os estudantes, embora reconheçam o valor dos sistemas políticos oci­dentais, parecem pouco dispostos a aceitarem as consequências práti­cas dos mesmos. Pelo que as manifestações e as greves, sobretudo em setores-chave como a educação e a saúde, são resssentidas como abu­sivas e destabilizadoras da ordem e harmonia sociais. É ainda na relação dos portugueses com o trabalho que surgem impressões e imagens mais negativas. Os estudantes chi­neses não percebem por que razão os portugueses não possuem atitu­des ativas, por exemplo, quando perdem o emprego e como reação se põem a dizer mal do governo ou vão passear para a praia, como se nada fosse.

Mais? Grande é ainda a impressão provocada pela beleza e limpeza do metro de Lisboa, cujas estações são consideradas verdadeiras obras de arte para as quais grandes nomes de artistas portugueses têm vindo a contribuir, criando uma excelente e muito aprimorada impressão artís­tica nos estrangeiros em geral e nes­tes estudantes chineses em particu­lar.

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Na produção de imagens relativas a hábitos e tradições distinguem-se, além dos hábitos gastronómicos do café a Ocidente e do chá a Oriente, ou da vontade de partilha física, económica e espiritual, à mesa chinesa, versus o individualismo por­tuguês, o consumismo que se esta­beleceu no Oriente, sobretudo em Macau e na China em torno das principais festividades ocidentais, tais como o Natal.

É construída ainda uma imagem po­sitiva em torno do civismo portu­guês, visto como um hábito alta­mente salutar e expresso, de acordo com estes estudantes, na paciência com que os condutores tratam os peões nas ruas. Célia (Chan Un Man, T 17, Macau, 5 de dezembro, 2015) refere-o por contraste à aventura em que se transforma atravessar uma rua em Macau:

“Pelo contrário, os condutores por­tugueses normalmente têm muita paciência, ou seja, estão muito educados em termos de condu­ção. Além de pararem sempre nas passadeiras, às vezes deixam os pedestres passar embora o semá­foro esteja verde. Lembro-me duma vez que o condutor não me viu, e depois de ter passado, pa­rou e me pediu desculpa.

Acho que este é um hábito que vale a pena ser seguido pelos condutores do mundo inteiro.”

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Que imagens culturais nos revelam estes estudantes chineses da geo­grafia portuguesa? Quais os símbo­los geográficos que distinguem? Dentro da geografia humana, en­contramos na linha da frente, a pai­sagem arquitetónica em honra dos Descobrimentos, tal como a Torre de Belém ou o Padrão dos Desco­brimentos. Mostram ainda grande propensão para valorizar meios de transporte como o Ascensor da Gló­ria, que os conduz a um Portugal antigo com uma cultura diversifi­cada, além de apontarem para cafés e esplanadas que normalmente con­trapõem às casas de chá chinesas. Referem ainda a calçada portu­guesa, apelidada uma verdadeira obra de arte. Calçada esta que mui­tos deles já haviam encontrado em Macau, sob administração portu­guesa por mais de 400 anos, como refere Kathy relativamente ao Cen­tro Ecuménico de Kum Iam, arqui­tetado por Cristina Leiria pouco an­tes da transição de Macau para a China, e acrescenta uma reflexão sobre a importância de prevalecer uma ordem mundial pacífica.5 O facto de a Região de Macau ter es­tado sob administração Portuguesa deixou as suas marcas no terreno, ainda que Portugal saia a ganhar por ser menos poluído, já que a po­luição é uma preocupação cons­tante na geografia mental destes alunos. Diz-nos Clara (Chan Hoi Leng, T17, Macau, 5 de dezembro de 2015):

“Lisboa faz-me recordar o am­biente anterior de Macau. Dantes o Território também possuía ar fresco, céu limpo e tranquilidade. Ontem li uma notícia sobre a po­luição do ar em Portugal, a qual será a causa de maior número das mortes no futuro. Mas o país ainda consegue manter a quali­dade do ambiente, sendo uma terra confortável e maravilhosa. Acho que os portugueses devem preocupar-se com este pro­blema.”

Também o tempo é considerado uma verdadeira bênção divina6, que fica gravada em turistas de todo o mundo, não escapando os chineses à regra. Estes têm vontade de re­gressar a Portugal só para poderem contemplar o magnífico azul do céu.

A cidade de Lisboa é ainda consi­derada pela grande maioria um excelente sítio para se viver pela calma, paz e qualidade de vida que proporciona, difícil de encontrar em muitos países asiáticos, ainda que algumas cidades chinesas, como Tianjin, nas palavras duma das alu­nas tianjinenses, simultaneamente professora no Instituto Confúcio, se lhe possa comparar7.

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As imagens culturais relativas à mi­gração, e portanto ao acto de viajar, bem como às oportunidades que proporciona, não podiam ser mais positivas. Viajar permitiu a muitos destes estudantes abrir horizontes, favorecendo oportunidades existen­ciais únicas. Porque vieram até Por­tugal, puderam escapar à rotina de acabar o curso e imediatamente co­meçar a trabalhar, a fim de comprar casa e constituir família. Como tal, por viajar podem entrar em contacto com modos de vida diferentes, sendo os Estados Unidos da Amé­rica também apontados como um exemplo de excelência para se cul­tivar formas alternativas de estar, pouco conservadoras, até do ponto de vista sexual, que lhes permite en­contrar formas distintas da organi­zação familiar tradicional.

Mas os portugueses situam-se em primeiro plano no olhar destes es­tudantes por serem viajantes eméri­tos susceptíveis de conceder ótimos exemplos de vida. Eles quando não viajam, leem, dando verdadeiras li­ções de vida a uma geração de chi­neses e macaenses condicionada pela informática e seus múltiplos jo­gos. Alguns dos alunos chineses re­ferem o ter vindo até Portugal como motivador da reaprendizagem do hábito da leitura. Um dos alunos, Mário (Hoi Tang U, T18, Macau, 20 de novembro de 2015) encontrou mesmo a possibilidade de classificar a socie­dade portuguesa segundo a etiqueta “3 Ls”: São “Os “3 Ls” mais represen­tativos da comunidade portuguesa, a saber: Leite, Leitura e Ladrão.”

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Os estudantes chineses e macaen­ses parece privilegiarem os valores transmitidos pela filosofia ociden­tal. Consideram os nossos idosos muito mais desportistas do que os chineses e pensam que fazer des­porto prolonga favoravelmente a vida dos mais velhos8. Também apreciam o facto de os ocidentais estarem menos preocupados em comprar casa e constituir família, parecendo tirar melhor partido da vida por não se preocuparem tanto com o trabalho e com as questões financeiras9.

A poluição na China e em Macau é uma preocupação constante nestes es­tudantes, o que os leva a defender va­lores filosóficos ecológicos, formando uma imagem cultural muito positiva dos portugueses neste domínio.10

portugueses mira chineses 6 

Grande Ponte Hong Kong, Zhuhai e Macau.

A cognição cultural é a ponte para a aproximação de sociedades de características culturais diversas

Um outro aspeto cultural muito valo­rizado é a globalização, pelo que os estudantes chineses consideram hoje menor a diferença cultural entre oci­dentais e orientais, ainda que com um predomínio dos valores dos pri­meiros sobre os segundos, ou seja, a globalização segue o padrão ociden­tal. Segundo Emily (Huang Jingting, T18, China, 15 de outubro de 2015):

“Um dia comum dum cidadão duma metrópole qualquer pode ser assim: Levanta-se quando o despertador do Iphone toca. De­pois de tomar um duche com champô de P&G, toma um copo de café da Nestlé. Conduz até ao trabalho no seu Mercedes, onde almoça. Compra um cheesebur­ger no McDonald’s que engole na frente de um computador Mac. Para jantar, convida os amigos por whatsapp e juntam-se todos num restaurante duma grande cadeia. Acaba dia deitado numa cama do IKEA.”

Resumindo, atualmente pensamos quase todos da mesma maneira, porque há um modo de vida geral que aceitamos, muito condicionado por um determinado modelo eco­nómico, que nos padroniza, mesmo inconscientemente, pelo que os es­tudantes se sentem muito próximos uns dos outros, sejam asiáticos, europeus, africanos ou americanos: grande parte aspira ao mesmo, den­tro e fora da escola ou no trabalho: estarem ligados a uma qualquer rede informática, terem muitos ami­gos online e inúmeros apetrechos informáticos, de computadores a iphones, passando pela comida sim­ples e rápida, bem como por casas práticas e funcionais.

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Por fim, conclui-se com um sonho utópico, expresso por um chinês, acredito que partilhado por muita gente ao longo dos tempos, que é o desejo dum mundo pacífico, har­monioso, espontâneo e não hierar­quizado, evidenciando uma ordem fraterna e universal, tal como é des­crita por Jesse (Jianxin Guo, T21, China, 15 de janeiro, 2016):

“Os países e governos desapa­recem, a Terra é casa para toda a gente; o dinheiro e a proprie­dade privadas desaparecem, nin­guém trabalhará para viver por não ser necessário fazê-lo. Ha­verá máquinas que o fazem per­feitamente por nós. Ninguém terá problemas de alojamento ou comida, as pessoas podem tra­balhar, mas só por amor ou para gozar a vida. As cidades e a fa­mília desaparecem, porque ha­verá novos meios de transporte que podem levar as pessoas para qualquer sítio da Terra num se­gundo, e toda a terra será uma família (...) Na utopia, vive-se mais de 1000 anos (...) Ninguém come carne, toda a gente é ve­getariana, mesmo os animais são vegetarianos, por exemplo, os ti­gres, leões entre outras feras só comem vegetais, as pessoas e animais vivem em harmonia e felicidade.”

Seguindo o raciocínio de Jesse, seria bom que nos tivéssemos na mira um dos outros não para nos rotularmos ou dispararmos uma série de precon­ceitos e ideias feitas, mas para que nos procurássemos entender cada vez melhor, para convivermos o mais perfeitamente possível, no respeito uns pelos outros, dum modo vário, global quanto baste, em que a única postura de facto universal fosse de aceitação dos outros e suas maneiras de ser e de pensar. Acreditamos que o presente artigo é mais um passo conjunto nessa direção.


1 Havia outros estudantes no curso, vindos de diferentes partes da Ásia, da América do Norte e do Sul, de África e do Médio Oriente, ainda que se encontrassem em minoria, além de não constituírem fonte de produção de imagens culturais relevantes para o domínio do presente estudo centrado em Macau e na China.

2 Mário (Hoi Tang U, T18, Macau, 10 de outubro, 2015): “Não concordo que os portugueses sejam preguiçosos. O Cristiano Ronaldo já o provou e ele é um exemplo para incentivar as pessoas que tentam alcançar os seus objetivos.”

3 Ester (Un Pui Seong, T18, China, 25 de outubro de 2015) “Já em Portugal e no século XXI, a artista plástica Joana Vasconcelos recorreu ao imaginário da filigrana para elaborar uma obra de arte chamada Coração Independente Dourado, em 2004, por isso vejo que a tradição da filigrana continua viva no país.”

4 Lisa (Guo Li Sha, T18, China, 1 de novembro de 2015): “É possível que o próximo presidente de Portugal seja uma mulher!”

5 Kathy (Lam Ka Man, T21, Macau, 3 de outubro de 2015): “Após a segunda guerra mundial, os países colonizados foram-se tornando independentes. Em 1999, a soberania de Macau também foi transferida de Portugal para a China. Desejo que, de agora em diante, não haja mais guerras nem colonizações. Todo o mundo pode aprender a respeitar diferentes culturas e religiões de todas as raças.”

6 Ester (Un Pui Seong, T18, China, 22 de novembro de 2015) “Ontem, perguntei a uma amiga minha que já regressou à Malásia se ela tinha saudades de Portugal. Ela respondeu-me que estava com saudades do clima. Acho que é certo que as pessoas, seja o povo, sejam os turistas, todos gostam muito do clima. Mal chegam aos países deles querem regressar a Portugal. E, sim, o clima português é um símbolo do país e uma benção de Deus.”

7 Júlia (Wang Guangzhu, T17, China, 13 de outubro, 2015): “Penso que Tianjin e Lisboa têm muitas semelhanças, ambos os lugares são tranquilos, sendo adequados para viver. Muitos amigos de cá me disseram que Lisboa é uma cidade muito pequena. Porém, para mim, Lisboa é todo um mundo. Porque aqui o ambiente é agradável, há árvores e flores em toda parte, além disso, o rio Tejo e o mar atraem-me muito. Gosto imenso das praias em volta da cidade, tipo Cascais.”

8 Mário (Hoi Tang U, T18, Macau, 30 de novembro de 2015): “Depois de voltar para Macau, vou partilhar o dia-a dia dos idosos portugueses com o meu avô, para o convencer a começar a fazer mais desporto e a lutar pela longevidade.”

9 Kathy (Lam Ka Man, T21, Macau): “Quando comparo as sociedades ocidental e oriental, vejo que a sociedade ocidental não dá tanto ênfase aos resultados da escola e aos valores familiares como sucede no Oriente. Os pais encorajam os filhos a aprender com a vida diária, e não só nos livros escolares. Embora o dinheiro seja muito importante na nossa vida, acredito que a vida é para ser vivida, e não só para ser sobrevivida.”

10 Pedro (Chan Hangbin, T17, China, 30 de outubro de 2015): “Comparando com os países europeus, como Portugal, o governo de Macau tem muitos menos sensibilidade para a proteção ambiental e não tem uma atitude ativa para a implementação de políticas relevantes.”

Referências Bibliográficas

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Turmas 17, 18 e 21: Diário de Bordo do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa da Faculdade de Letras de Lisboa para o mundo no ano letivo de 2015/2016. Coordenação de Ana Cristina Alves.

Severino Cabral 
Diretor-Presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico-IBECAP 

 

 

“Há lugares que surgem à nossa atenção como topologias privilegiadas, no Mundo e na História. E são, muitas vezes, aqueles pequenos pontos no mapa favorecidos pela sintonia do factor geográfico com o factor político. Macau foi, e continua a ser, um desses pontos.” A Direção do IIM, in “Macau – puente entre China y America Latina”.

 

Camões: "Já no largo Oceano navegavam,/ As inquietas ondas apartando; "(Os Lusíadas, I, 19).

 

Agostinho da Silva: "Creio, por mim, que o fará; mas que o vai fazer na própria vida: não teremos desta vez páginas de livros, mas tipos humanos: o que vai dar uma oportunidade única a povos para os quais foi a vida sempre o mais importante: China, Índia, Península (Ibérica), América do Sul" ("Filosofia Nova", Convergência Lusíada, p. 361).

 

Nau portuguesaNau portuguesa.

O acontecimento da abertura das rotas oceânicas do comercio e da navegação mundiais, com o feito épico lusitano do domínio do Atlântico e do Índico, inaugura uma nova época para o conjunto da humanidade. Sob inequívoca liderança lusa foram construídas as bases do mercado mundial ao universalizar-se a troca e o intercambio de bens e cultura entre o Novo e o Velho mundo. Essa conquista só é comparável, pelo efeito de transformação nos destinos de todos os povos e todas as nações do mundo, ao que se passa em nossa época com o fenômeno da soi-disant “globalização econômica e financeira”, ao mudar em sua totalidade o ambiente social, político, econômico, tanto quanto científico e cultural da humanidade hodierna.

 

Vivemos a grande transformação da cena mundial contemporânea decorrente entre outros fatores, de um lado, da continuidade da Revolução Cientifico Tecnológica – da idade atômica à era espacial, e da revolução da comunicação até o desenvolvimento das ciências da vida –, de outro, da emergência de grandes espaços continentais e populacionais no Oriente – China e Índia – e, no Ocidente extremo, da América Lusa.

 

Neste horizonte do começo de século e de milênio sobreleva o extraordinário crescimento e desenvolvimento da China que, por sua dimensão particular de um “megaestado” continental e marítimo – como centro mundial de poder – não só instaura uma nova realidade econômica e política internacional, como aponta para a emergência de uma nova ordem mundial multipolar.

 

A ascensão da China no mundo de hoje não surpreende quem conhece a his- tória da civilização e da nação chinesa. Como também não surpreende que a relação da China com o Ocidente moderno tenha sido inaugurada pelo encontro com a Nação Lusa, sua língua e cultura. Como é conhecida, a saga da aventura lusitana se estendeu a todos os mares e todos os continentes.

 

Estátua de Jorge Álvares, em Macau.Estátua de Jorge Álvares, em Macau.

Hoje, distanciados no tempo, podemos ver que a viagem do navegador Jorge Álvares ao estuário do Rio Pérola, a mando de Afonso de Albuquerque, faz parte da extraordinária epopéia Lusa de redescoberta do mundo pelo Extremo Ocidente. Esta viagem inaugura o dialogo Ocidente e Oriente pelo lado português.

 

Pouco mais adiante, em 1557, seria cristalizada, esta relação, pelos séculos a vir, com a fundação de Macau. E, assim, por cinco séculos, Portugal – a Grande Potência Marítima do Ocidente –, inseriu-se na paisagem chinesa. Misturou-se a ela, em cultura e afeto, com um laço por todos os tempos jamais desfeito: um pequeno rincão da China foi e permanece definitivamente marcado pela luz da civilização lusitana.

 

De tal maneira que, como um fato gerador de futuro, no dia 20 de dezembro de 1999, nascia a Região Especial Administrativa de Macau, na China; pequeno acontecimento altamente significativo do final do século XX. A partir dele muitas transformações adviriam no contexto internacional, desafiando a capacidade e o talento inovador do homem de Macau para gerir com autonomia, e criar um ambiente único de encontro do Ocidente com o Oriente.

 

Luís Vaz de Camões.

 A aventura lusa abriu o caminho das rotas oceânicas do mundo, gerando o mercado universal contemporâneo; tal feito está na origem do fenômeno da soi-disant “globalização”. Esse fato está definitivamente retratado na imortal epopéia camoniana. A poesia de Camões, autor maior da língua portuguesa é testemunho vivo da trajetória seguida pela gente lusitana, que construiu o Brasil, a África e a Ásia como pátria humana comum. A literatura de língua portuguesa independente do acento que exiba – metropolitano, americano ou ásio-africano – representa, ontem como hoje, o que de melhor o mundo lusitano e a sua cultura integradora e universalista inspirou, em diferentes épocas da história, à humanidade ocidental.

 

Ambiente único de encontro da cultura singular do Ocidente Latino, baseada na língua do povo português; e, no mesmo sentido, com a cultura mater do Oriente Sínico, baseada na língua do povo Han. Acontecimento histórico que se amplia a uma dimensão global, dado o tamanho da população de 260 milhões de luso-falantes, que integra a comunidade de países de língua portuguesa, presente em todas as regiões do mundo, e, de outro, a língua chinesa e o maior ecúmeno nacional do mundo. Lugar, pois, nuclear do encontro de duas culturas de significado especial para o Brasil, porque baseadas na extensão universal das línguas de cultura chinesa e portuguesa.

 

Mas a língua portuguesa não teria essa dimensão se não fora o reconhecimento do fenômeno ao qual, um dia, o gênio de Fernando Pessoa denominou “o grêmio da língua portuguesa”: o fato de que o Brasil e os países que compõem a Comunidade da Língua Portuguesa têm uma mesma língua de cultura e basicamente formam um mesmo processo civilizatório. Uma língua de cultura universal a qual, como os padres da Companhia de Jesus revelaram ao mundo, formava um par criador com a outra língua universal da cultura humana: o idioma chinês.

 

O começo dos tempos modernos assistiu ao povo lusitano inaugurar uma época da história da humanidade baseada no sistema internacional fundado no comércio e na interação entre povos e civilizações: os descobrimentos das rotas oceânicas do mundo, a unir pela primeira vez todos os continentes e todos os meios de riqueza e poder do homem, fruto da grande aventura marítima de Portugal, talvez só tenha símile na conquista do cosmos da nossa época.

 

Quando brasileiros exaltamos a grande conquista do povo português é porque ela não pode ser esquecida pelo que significou para o destino nacional do Brasil. Sem a epopéia portuguesa dos Descobrimentos não haveria a nação brasileira tal como é conhecida de seus filhos e de todos os demais povos do mundo contemporâneo. Só por isso se justificaria a grande aventura do espírito luso. 

 

Vasco da Gama.

Ela pode ser inda hoje medida pela construção ainda incompleta do outro Brasil – o Brasil africano – legado a ser realizado no futuro pelos países que formam a Comunidade de Língua Portuguesa na África.

 

Além da África, a Índia e a China foram também tocadas pela presença lusa na língua e na cultura. Desse modo podemos dizer que todo o mundo civilizado foi unido pela língua portuguesa: uma língua universal pela riqueza de sua expressão e pelo âmbito que ela criou.

 

A importância da conquista lusa das passagens do Grande Oceano, que banha o Hemisfério Ocidental, a África e a Ásia, residiu, sobretudo, na aven- tura de levar aos continentes mais distantes a fé cristã e a nova ciência da natureza, que veio a substituir o cosmos do mundo antigo pelo universo infinito da era moderna.

 

Foi essa passagem do Ocidente ao Oriente que permitiu a Índia e a China se integrarem ao mundo da modernidade e se introduzirem no sistema industrial e urbano que da Europa se estendeu a todo o mundo.

 

Um símbolo vivo dessa relação do mundo lusófono com o Oriente tem sido a cidade de Macau que, fundada em 1557, permaneceu administrada por Portugal até 1999, num arco de tempo que foi dos começos da época dos descobrimentos até ao término do segundo milênio da era cristã.

 

No momento em que a China inicia nova e decisiva etapa de sua mo- dernização, orientada pelo sonho chinês da revitalização nacional, ao construir as bases da retomada do crescimento da economia global, com a criação da gigantesca infraestrutura a ser gerada pelo projeto do “Cinturão e da Rota Marítima do Século XXI”, assistimos à reconstrução estratégica das rotas antigas do comércio do Velho Mundo. Esta é uma grande e inovadora iniciativa chinesa que motiva e inspira a todos os países do Velho Mundo a reconstituírem a antiga rota do comercio mundial que uniu outrora o Império Romano ao mundo Sino e Indo-Persa.

 

No entanto não se pode deixar de pensar que a economia global não se sustentará apenas na reconstrução dessa antiga rota do comercio internacional, mas sim irá necessitar da complementação pela reassunção do mundo criado pela abertura da rota do Cabo, por Vasco da Gama, e da Circunavegação pelo Sul do continente americano, empreendida pelo navegador português Fernão de Magalhães, a serviço de Espanha. Essas duas épicas viagens, na aurora dos tempos modernos, estabeleceram a ligação Pacífico, Atlântico Sul e Índico, no conjunto denominado por Sir Halford Mackinder de “Grande Oceano”.

 

Parece que, se vier a se estruturar esta segunda grande rota de comercio internacional – a Carreira das Índias e a Carreira do Pacífico –, ela deverá tornar-se essencial ao reerguer-se da Economia Global. Como também deverá se tornar por meio dos múltiplos pólos de poder um sustentáculo do equilíbrio do poder numa época de intensas mudanças na ordem mundial.

 

imagePedro Álvares Cabral.

O começo do século XXI e do Terceiro Milênio está a configurar o nascimento de nova e complexa ordem mundial, na qual a parceria es- tratégica de dimensão global dos países lusófonos dará caráter de sustentáculo, pilar, socle, ao sistema internacional multipolar. O poder meridional que emergirá com a integração do espaço sul-americano mais o cone austral africano tornará o Brasil, país central do mundo lusófono, o primeiro estado “tri-oceânico”, que deverá, junto com a China e Índia ser um dos pilares da nova ordem mundial (global).

 

A realização desses projetos nos revela também o fato de que Macau não só deverá acompanhar o ritmo acelerado de desenvolvimento chinês como vir a se tornar uma plataforma de cooperação e intercâmbio da China com o mundo de fala portuguesa em todos os continentes. Caberá aos outros membros da comunidade de língua portuguesa um esforço a mais, na linha antecipada pelos clássicos eternos da língua portuguesa para ampliar essa plataforma ligando todos os “lusitanisados” do mundo ao universo cultural sínico, e assim abrir o passo para entrada da humanidade do terceiro milênio na era da “nova mundialidade”.

 

 

Bibliografia

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